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[Por que Daiane não levou?]


KATARINA PEIXOTO*


Há componentes que os países oferecem aos seus atletas, para que eles sejam campeões. O Brasil, como se sabe, não os oferece como se deve. E, assim, onde não há abismo, nós vencemos, e onde eles existem, não. Daiane não levou. Viva Daiane!

A posição mais prudente é, para quem não gosta muito de esportes, calar-se e aguardar os diagnósticos técnicos daqueles comentaristas que são considerados pela mídia como experts. Mas, diante da lamentável patriotada da mídia brasileira, que faz galhofa de nossas sinapses, diante do trigésimo e tantos lugar que ocupa o Brasil, na grande competição, talvez, quem sabe, valha a pena pensar a "derrota" dessa grande atleta, que é, acima de tudo, uma exuberante surpresa.
Há, é evidente e histórico, um abismo que separa Daiane dos Santos de Catalina Ponor, a romena tecnicamente deslumbrante que levou o ouro. Assim como há um abismo que separa Jadel do sueco que levou o ouro no salto triplo. Assim como um abismo separa Rivaldo de David Beckham. Esse mesmo abismo, que não há em relação a Robert Scheidt, numa modalidade esportiva da elite brasileira. Mas, então, muito cuidado com nossas avaliações: não é só a fome o que nos separa. Tampouco o talento abstrato de um povo sofrido, pelo fato de ser sofrido. Fosse assim, a atleta palestina poderia levar o ouro, nos cem metros rasos, não é mesmo? Infelizmente, na vida real, essas abstrações são destroçadas. Felizmente, por outro lado, não precisamos, realmente, de heróis.

Há um componente poderoso nos países que oferecem seus atletas para uma disputa do porte das Olimpíadas. Esse componente, porém, é sonegado na lamentável cobertura jornalística que estão cometendo, contra a nossa inteligência. Quem assiste às transmissões da tevê pode imaginar que o Brasil está, em todas as modalidades, praticamente, entre os melhores do mundo. Há um entusiasmo em dentes límpidos, com direito a trilhas sonoras, gritarias, cujo sufoco aborrece a mais tímida das criaturas. E tudo retoma o seu lugar, antes do bloco seguinte aos comerciais, com a realidade do quadro de medalhas.

E, pois bem, quem está na frente, na realidade? EUA, o império, China, a potência agora mais incontestável ainda - pelo menos enquanto potência que, sim, cresce economicamente -, o Japão, a França, a Alemanha, a Austrália e por aí vai. Mas Daiane, isso também é incontestável, é um acontecimento que, por isso mesmo, mereceria atenção - e não histeria - devida. Ela merece, e quem contratou o ucraniano que a treina, também. Ela merece assim como merece o seu treinador, o mais entusiasmado aplauso. Aplauso e grito, grito e, para quem acredita em Galvão Bueno - vamos lá -, lágrimas.

A patriotada galhofenta e desrespeitosa designou repórteres não para fazer a cobertura da ginástica olímpica nas Olimpíadas de Atenas, 2004. Não informa sobre as ginastas, mas sobre as "rivais de Daiane", não dedica um segundo a uma entrevista com as meninas da Romênia, país que só se inscreve no mundo, fora o Conde Drácula, por conta da ginástica. E a ginástica, na Romênia, ocupa a mesma posição que o futebol, no Brasil. É assim que um vendedor de amendoim nas praias do litoral norte de Pernambuco pode ser Rivaldo e uma menina pobre como Catalina pode ganhar ouros, vários, em Olimpíadas.

A prática continuada de um esporte, socialmente articulado e pertencente a todas as classes sociais dá ao nosso futebol muito mais que talento, mas um lugar no mundo, até aqui, imbatível. E assim é na Romênia, com a ginástica. A Romênia na ginástica, a Ucrânia na patinação, o Brasil no futebol e, agora - de quinze anos para cá -, no vôlei. Daiane não contou com isso. Ela escolheu - ou foi escolhida, com sabedoria - um caminho difícil. É assim o caminho que os candidatos a heróis escolhem - ou são escolhidos. E, nesse caminho, a prática começa com ela mesma, não tem, basicamente, nada atrás, nenhuma história, nenhum suporte para os minutos de uma apresentação.

Nem precisa dizer que não tem Estado, que não tem educação, que não tem a atenção devida. Essas ausências, aliás, fazem parte também da trajetória do notável Jadel, o negro lindo do salto triplo, o enorme João do Pulo de um Brasil menos esperançado e mais brutalizado que em 76. Daiane, pode-se dizer, mesmo detestando Galvão Bueno e sua gritaria desrespeitosa, chegou lá. Aliás, pode-se e deve-se dizer, aos berros, com milhões de segundos bem respirados de orgulho e comoção. Ela chegou lá por várias razões, e quem não gosta muito de esportes não tem como saber todas. Mas algumas são nítidas: tem uma família gregária e estruturada, teve, sendo pobre, acesso à educação, onde uma professora pôde descobri- la. Ela não foi conduzida à ginástica pelas mãos do avô rico, que incentivou o neto - talentoso e brilhante -, a escolher o esporte. Ela foi, em grande medida, por si mesma. Talvez tenha sido essa potência solitária que a fez, no dia da prova, perder pontos ao ultrapassar os limites do tablado, depois de um salto extraordinário. Ela, enfim, não tem, como ginasta, especificamente, nada atrás que dê suporte à tensão violenta que vem se abatendo sobre si, capitaneada, de maneira ridícula e opressora, pela mídia.

O abismo que separa Daiane de Catalina é um abismo cultural específico. E nesse abismo se introduz, violentamente, a pressão da mídia. Não fosse o Conde Drácula, a Romênia seria notícia desde que Nadia Comaneci brilhou quase eternamente em Montreal, ou quando as torneiras de ouro de um tal de Nicolae Ceausescu tornaram a Romênia famosa, com o sangue do silêncio imposto pelo totalitarismo stalinista. Para saber que a Romênia existe, portanto, tem-se de saber de sua ginástica. No Brasil, a ginástica vira notícia depois que o sério trabalho do imigrante do totalitarismo, que aporta em Curitiba, começa a ganhar medalhas. E a ginástica, então, que não é notícia, ganha o nome de Daiane. Erguida ao pódio de celebridade, a menina negra de Porto Alegre se torna alvo de todas as expectativas e, como dizem sem parar os jornalistas na tevê, destinatária de todas as esperanças dos brasileiros.

Se Daiane e Jadel, para ficar só nos dois, com o perdão da ignorância, tivessem ganhado o ouro, o que teria acontecido? Há duas maneiras de responder. A primeira, é imaginar a reportagem das tevês, sobre uma espécie de Pelé menina e um João do Pulo do século XXI. Trilha sonora, a família pobre e feliz com a vitória dos seus "vencedores", os sorrisos dos apresentadores do telejornal, com o queixo balançando, e os lábios apertados, afirmando que, quem se esforça, consegue. A outra maneira, poderia ser mais honesta e, talvez por isso mesmo, não tenha se tornado realidade. Daiane venceria e nós, conhecedores, posto que bem informados, sobre as ginastas romenas, a chinesinha espetacular e a mocinha insípida da Espanha, comemoraríamos o feito de uma pequena notável que, sendo negra e pobre como o seu companheiro de delegação Jadel, encontrou uma oportunidade e venceu, tornando-se heroína do país.

Celebraríamos a vinda da disciplina ucraniana, a escola que, em Porto Alegre, através de uma talentosa professora, descobriu Daiane e, claro, a sua família. Estaríamos prontos para dizer que este país tem futuro, que a ausência de uma prática reiterada e culturalmente indiscriminada que dê lugar a todos, pode conduzir ao pódio. Que sem financiamento é possível ser campeão, que sem apoio e com muita pressão, inclusive imagética, é possível, perfeitamente possível, chegar lá. Esse não é o Brasil. Essa, portanto, também não é Daiane. Se, sob diversos aspectos, trata-se de uma vencedora, inconteste, sob outros, é uma digna perdedora. Pelo menos Galvão Bueno não vai dissecar seu significado, para destruir o sentido real da esperança. Pelo menos não teremos uma heroína de tevê, incapaz, na realidade, de transpor, sozinha, as desgraças de nossa sociedade desigual. Pelo menos não teremos, estampada em todos os grandes jornais, a grande mentira que assola a cobertura das Olimpíadas. Há componentes que os países oferecem aos seus atletas, para que eles sejam campeões. O Brasil, como se sabe, não os oferece como se deve. E, assim, onde não há abismo, nós vencemos, e onde eles existem, não. Daiane não levou. Viva Daiane!

* Katarina Peixoto é mestranda em Filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-mail: katarinapeixoto@hotmail.com
** publicado na Agência Carta Maior.
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