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# [Kafka, pensador insubmisso] Ensaio de Michael Löwy debate, no aniversário de 80 anos da morte de Franz Kafka, a relação do escritor checo com o socialismo e o anarquismo Michael Lowy, Rouge É evidente que não se pode reduzir a obra de Kafka a uma doutrina política, qualquer que seja. Kafka não produz discurso, cria personagens e situações e expressa em sua obra sentimentos, atitudes, um estado de espírito. Não é proibido, porém, que se explore que ligam seu espírito anti-autoritário, sensibilidade libertária e simpatias socialistas a seus principais escritos. São vias de acesso privilegiadas ao que poderia ser chamado de sua paisagem interna. Kafka havia manifestado interesse pela Revolução Russa: em carta dirigida em setembro de 1920 a sua amiga Milena, faz referência a um artigo sobre o bolchevismo que havia causado grande impressão, afirma,“em meu corpo, meus nervos, meu sangue”. Trata-se de um artigo de Bertrand Russel, intitulado “Sobre a Rússia Bolchevique”, publicado no diário Prager Tagblatt de 25 de agosto de 1920. O ponto de vista de Kafka torna-se preciso em outra carta a Milena, algumas semanas mais tarde: “Não sei se você compreendeu minha observação sobre o bolchevismo. O que o autor lamenta, aos meus olhos merece o maior elogio que pode ser dado aqui embaixo”. A qual crítica fez referência o filósofo inglês? “O verdadeiro comunista é inteiramente internacional. Lênin, Por exemplo, não está mais preocupado com os interesses da Rússia que com o dos outros países. A Rússia é, neste momento, protagonista de uma revolução social e, como tal, tem um valor para o mundo. Mas Lênin estaria disposto a sacrificar a Rússia em lugar da revolução, caso esta disjuntiva aparecesse”. Em outros termos, o que parece a Kafka digno de elogio nos revolucionários russos é, precisamente, o que envergonha Bertrand Russel: seu compromisso radicalmente internacionalista... Comunismo, anarquismo e amor livre Estes comentários mostram um interesse – crítico – em relação à experiência soviética mas, no estado atual da documentação, nada sugere alguma relação de Kafka com o movimento comunista. Em vez disso, numerosos testemunhos de contemporâneos fazem referencia à simpatia do autor em relação aos socialistas libertários checos, bem como sua participação em algumas de suas atividades. No começo dos anos trinta, Max Brod recolheu informações de um dos fundadores do movimento anarquista checo, Michal Kacha. Referem-se à presença de Kafka nas reuniões do Klub Mladych (Clube de Jovens), organização libertária, antimilitarista e anticlerical freqüentada por vários escritores checos. O escritor anarquista Michal Mares registra a participação de Kafka em uma manifestação contra a execução do educador libertário espanhol Francisco Ferrer, em outubro de 1909. Entre 1910 e 1920, Kafka assistiu a conferências anarquistas sobre o amor livre, sobre a Comuna de Paris, sobre a paz e contra a execução de Liabeuf, militante libertário parisiense. Não se trata de modo algum de demonstrar uma pretendida “influência” dos anarquistas de Praga sobre os escritos de Kafka. Bem ao contrário, foi ele quem, a partir de suas próprias experiências e de sua sensibilidade anti-autoritária, decidiu freqüentar, durante alguns anos, as atividades desses meios. Sensibilidade esta, definida por ele mesmo, não sem sinceridade implacável, em uma carta de 19 de outubro de 1916 a Félice Bauer: “Eu, que desde muito jovem necessito de independência, tenho uma sede infinita de autonomia, de independência, de liberdade em todas as direções (...). todo laço que não crio eu mesmo, ainda que seja contra partes de meu eu, não têm valor, me impede que siga, o odeio, ou estou bem perto de odiá-lo”. Uma sede infinita de liberdade em todas as direções: não se poderia descrever melhor a linha vermelha que atravessa tanto a vida quanto a obra de Kafka -- sobretudo no período a partir de 1912 -- dando-lhes extraordinária coerência, apesar de sua trágica falta de conclusão. Um anti-autoritário em evolução Efetivamente, um anti-autoritarismo de inspiração libertária atravessa o conjunto da obra literária de Kafka, em um movimento crescente de “despersonalização” e reificação: da autoridade paterna e pessoal até a autoridade administrativa e anônima. Não se trata de nenhuma doutrina política, mas de um estado de espírito e de uma sensibilidade crítica -- cuja principal arma é a ironia, o humor, esse humor negro que é “uma revolta superior do espírito”. Os primeiros romances de Kafka -- O Veredito e A Metamorfose, de 1912 -- põem em cena a autoridade patriarcal, ou, retomando um comentário de Milan Kundera sobre o tema, o “totalitarismo familiar”. O grande giro em direção à crítica dos aparatos de morte anônimos é a novela Na Colônia Penal, de 1914. Poucos textos na literatura universal apresentam a autoridade sob um rosto tão injusto e assassino. Não se trata do poder de um indivíduo -- os comandantes da colônia não desempenham mais que um papel secundário na narração --, mas se um mecanismo impessoal. O marco da narração é o colonialismo francês. Os oficiais e comandantes da colônia penitenciária são franceses, enquanto os humildes soldados, os estivadores, as vítimas que devem ser executadas, são “indígenas” que “não compreendem uma só palavra do francês”. Um soldado “indígena” é condenado à morte por oficiais cuja doutrina jurídica se resume, em pouca palavras, à quintessência da arbitrariedade: “A culpabilidade não deve nunca ser posta em questão!” Sua execução deve ser levada a cabo por uma máquina de torturar que escreve lentamente sobre seu corpo, com agulhas que o trespassam: “Honra a teus superiores”. Estado “normal” e ataque às liberdades O personagem central do romance não é o viajante que observa os acontecimentos com uma hostilidade muda, nem o prisioneiro, que não reaje, nem o oficial que preside a execução, nem o comandante da colônia. É a própria máquina. A inspiração anti-autoritária está inscrita no coração dos grandes romances de Kafka, O Processo e O Castelo, que nos falam do Estado -- sob a forma da “administração” ou da “justiça” -- como de um sistema de domínio impessoal que esmaga, estrangula ou mata os indivíduos. É um mundo angustiante, opaco, incompreensível, no qual reina a não-liberdade. Deve-se recordar que Kafka não descreve, em suas novelas, Estados “de exceção”. Uma das idéias mais importantes -- cujo parentesco com o anarquismo é evidente -- sugeridas por sua obra, é a natureza alienada e opressiva do Estado “normal”, legal e constitucional. Desde as primeiras linhas de O Processo, está claramente dito: “K. vivia bem em um estado de direito (Rechtstat), a paz reinava em todas as partes, todas as leis estavam em vigor. Quem se atrevia, então, a assaltá-lo em sua casa?”. Como seus amigos, os libertários de Praga, Kafka parece considerar toda forma de Estado, o Estado como tal, como uma hierarquia autônoma e liberticida. Tradução: Tiago Soares Publicado em www.planetaportoalegre.net: 12/08/2004
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