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# [Narciso e Goldmundo] Flávio Aguiar Lembrei-me de Narciso e Goldmundo, os dois amigos do romance de Herman Hesse, ao presenciar num dos tantos debates do momento as perplexidades de nós, as esquerdas.
Narciso e Goldmundo é o título de um romance de Herman Hesse que fez a cabeça da minha – caramba! – juventude. São dois amigos que vivem num convento, na Idade Média. Narciso é o intelectual reflexivo da dupla. Ele não é narcisista, não. Na verdade é um intelectual apaixonado, mas apaixonado pelo rigor do próprio olhar, pelo acurado de seu pensamento. É um ser que vive em espaços interiores, ancorado em seu íntimo para poder discernir com mais lucidez os contornos de sua visão de mundo. Acho que foi com Narciso (além de outros mestres em carne e osso) que aprendi a pensar. Goldmundo é o contrário. Também é um intelectual. Mas é um intelectual voltado para o mundo exterior. Atira-se pelos caminhos e descaminhos, pelos atalhos e pelas vastidões, enfrentando os amores impossíveis, as paixões irrecusáveis, os ódios acendrados. Cada passo que dá é uma viagem, cada viagem que empreende é um novo passo em sua formação. Volta, sempre, coberto pelas cicatrizes, envolto pelas lembranças, com o pensamento revolto pensando na próxima partida. Foi com Goldmundo (além de com a vida em carne e osso) que aprendi a amar. Ao mesmo tempo em que as diferenças os separam, há entre ambos uma simbiose tal que aos poucos vai se delineando a questão, no romance, de se um estará presente para amparar o outro no momento do seu trespasse, isto é, na chegada ao destino, tanto do pensamento como dos caminhos: a morte. A resposta, deixo que o leitor e a leitora lembrem ou descubram. Mas o fato é que eles são almas, mais que isso, corpos companheiros e inseparáveis. Lembrei-me dessa leitura ao presenciar num dos tantos debates do momento as perplexidades de meus companheiros e de mim mesmo, de nós, as esquerdas. A USP, junto com as outras universidades estaduais de São Paulo, está em greve. Também está portanto a aguerrida Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, a nossa fefeléch, que é como dizemos a sigla FFLCH. Na assembléia da faculdade, ao lado das análises, algumas expressões de desânimo, de desacorçoamento, de derrisão: “a desilusão que passamos...”, “as surpresas que tivemos de engolir...”. À boca pequena, observações vingativas: “não voto mais nesse partido para nada [o PT]”, quando não um sonoro (embora dito baixinho) “não voto mais”, “não acredito em mais nada” etc. Confesso que ali tive meu momento de Narciso. Foi um momento ambivalente, porque ao mesmo tempo me vi como Narciso e fiz uma leitura penetrante do personagem. Pensei: nós, as esquerdas, somos bons para tentarmos enquadrar o mundo em nossas molduras de pensamento. Deixando de lado os sectarismos bobos, as esquerdas têm uma tradição de rigor no pensamento que devia ser invejável para todas as outras correntes, se estas em geral não fossem, elas sim, narcisistas, incapazes de ver os outros, a não ser para ler as vantagens possíveis para seus próprios ganhos, sem qualquer sombra de desprendimento. Desprendimento, as esquerdas têm. Mas até um certo ponto. Até o ponto de terem de olhar, não só para o mundo, mas para as suas próprias molduras de pensamento, e revê-las a fundo perdido. Estamos sempre prontos para vermos como o mundo cabe na nossa consciência; não raramente temos dificuldades de olhar com uma certa humildade generosa para tentar ver como a nossa consciência pode agir num mundo de difícil percepção. Fiquei pensando na eleição de São Paulo, por exemplo. Se a eleição de Porto Alegre vai ter um rasgo ideológico profundo, a de São Paulo vai ser fortemente marcada por um caráter de classe, de luta de classes (num dos debates Emir Sader fez referência a esse caráter), ou o que dela resta. Vai ser o povão da periferia versus a burguesia cortesã e a classe média, aquela de feição conservadora. Estou falando de perfis gerais, vejam bem: é claro que nesses perfis há recortes e mais recortes, há atalhos e remansos especiais, que cortam para muitos lados. Mas esse caráter geral e universalizante vai existir, e vai acabar despontando. Fiquei pensando também: se a atual administração da prefeita Marta e do PT perderem, quantos programas sociais de valor, e de saúde, e educacionais, e culturais, e outros nessas periferias desamparadas vão deixar de existir, vão se desorganizar, com conseqüências funestas para a população, e não só para os pobres ou miseráveis, mas para a população de todas as rendas. O trânsito está ruim em muitas partes, por causa de obras que a direita ataca e a esquerda às vezes não sabe ou não quer defender? Está. Mas o transporte coletivo melhorou, e num sem número de casos melhorou muito, indo do zero ao sete ou oito, já que dez seria impossível numa cidade como São Paulo. Posso atestar: na classificação do consumo, pertenço ao segmento A, ainda que endividado; mas ando de ônibus. Sem falar que até um ano e meio atrás quem mandava no transporte coletivo viário de São Paulo era uma máfia de fazer corar o Sr. Corleone do filme. Nos bairros, apesar dos inúmeros problemas existentes, começam a se notar calçadas – calçadas! – onde os pedestres podem andar com relativa comodidade, porque depois do ciclone extratropical malupitta, a situação era simplesmente intransitável. Ora (direis), estais falando de cosméticos! Não, não: estou falando de índices da nossa auto-estima coletiva, índices que medem a temperatura do nosso íntimo, do nosso humor matutino e talvez o do nosso desencanto vespertino, cotidiano. As pessoas que não moraram em São Paulo nos últimos dez anos provavelmente terão dificuldade para ler o que esse sentimento profundo de auto-estima significa, em relação a esta cidade. No dia seguinte ao da eleição de Pitta, por onde se andasse, era possível sentir e ler nos rostos: “nós escolhemos a estagnação”, “nós escolhemos condenar esta cidade à sua perdição”. Dava para perceber em quem as pessoas tinham votado pela altura do olhar: se para baixo, eram eleitores do vencedor. Foi uma vitória sem comemoração. Agora há problemas? Há. Mas há quem se esforce por cuidar da cidade. Foi aí, nessa altura do meu devaneio que, voltando à assembléia onde eu estava, depois de meu momento de medição com Narciso, senti uma saudade inefável de Goldmundo, e da generosidade doada e doida com que ele arrostava as amplitudes. Porque o que ele via, tão claro quanto Narciso via a construção do pensamento, era a amplitude do mesmo, e de sua busca de espaços para enfrentar o fascínio da liberdade. Continuei pensando. Não é hora de olhar nem de votar com a própria desilusão, com o próprio desânimo, embora os haja, nem mesmo com o espírito de vingança: “agora esses caras vão ver o que é bom pra tosse”. Porque até pode ser que eles (os administradores da guinada à direita no governo Lula e no PT) vejam, mas quem vai sentir o que é a tosse nos outonos frios como este que ora faz serão as crianças de São Paulo e das incontáveis cidades brasileiras, quentes ou gélidas. É hora de votar com a mesma paixão que sempre tivemos, e de fazer a melhor escolha. Isso não é pregação de voto útil. As escolhas são várias, eu sei. O que quero dizer é que não é hora de escolher com o amargor nem com a decepção. Por quê? Porque, como disse um grande amigo meu também numa reunião dessas avaliações do momento em que vivemos, não se trata de querer “salvar” o governo Lula. Até porque nós não temos poder de salvar ou destruir governos, isso é coisa para Golberys e Geisels. Podemos simplesmente analisar e agir dentro de nossas limitações. O governo que salve a si mesmo. Ou não. Trata-se isso sim de salvar as nossas idéias, os nossos ideais, e eu acrescentaria, a integridade que nos trouxe até aqui. Essa integridade nos fez, as esquerdas, buscar a lucidez no pensamento e o rigor no olhar. Mas nos fez também abraçar as causas do povo, do povinho sofrido ou do povão alçado, mesmo quando fossem perdidas. Vistamos portanto todas as nossas cicatrizes de Goldmundo, e lutemos mais uma vez pelas opções que em nosso julgamento melhoram o mundo, ao contrário de vestirmos o pijama da desdita e a touca da auto-compaixão. E não se trata apenas de considerar o atual governo federal ou as próximas eleições, mas de encarar a vastidão do futuro e a premência de vê-lo, e vê-la. Até porque essa minha geração deve ao mundo um livro coletivo: Dos impasses do socialismo científico à necessidade de um socialismo utópico. Acho que os autores do Manifesto de 1848 assinariam, hoje, um tal livro. Buenas, parei com os devaneios. Estava na hora da minha intervenção. A favor da greve, é claro, embora com muita cautela e até alguma desilusão. * Flávio Aguiar é professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (USP) e editor da TV Carta Maior. :: publicado na Agência Carta Maior
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