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# [As dificuldades do caminho único] Camões, o grande poeta português, disse num dos seus mais célebres sonetos que o mundo é composto de mudança e que a mudança é tanta que a cada vez as coisas não mudam mais como mudavam antes. Os condutores da política econômica do governo não pensam assim. Para eles, nesse campo existe uma saída única, estabelecida num suposto manual de economia, que valeria para todo mundo e para todo o sempre. O papel do Estado em política econômica e finanças, acham eles, é garantir a estabilidade da moeda e assegurar que o câmbio seja flutuante, para que os capitais -- globais, evidentemente -- possam fluir livremente em busca das melhores oportunidades de investimento. O resto -- coisas como controle de câmbio, intervenção econômica e financeira do Estado -- são invenções extravagantes, que, aliás, o Brasil já teria tentado várias vezes, sempre com os piores resultados.
Em relação à turbulência financeira dos últimos dias -- que elevou as taxas de juros, o chamado risco país e o preço do dólar -- eles repetem que são distúrbios passageiros, que apenas adiam brevemente o momento em que o governo começará a colher os resultados de sua boa política, que é, é claro, a de seguir o manual. Qual o erro dessa avaliação? Basicamente, trata-se de um economicismo estreito, que não leva em conta a complexidade da vida real. O mundo social, real, é contraditório; não se comporta de acordo com os manuais da economia neoliberal, que tem uma visão essencialmente monetarista. Tome-se, por exemplo, o que ocorreu nesta quinta-feira. Tudo indica que foi a decisão do Banco Central de manter os juros em 16% e a derrota do plano de reeleição dos presidentes da Câmara e do Senado que piorou a situação dos mercados financeiros. Por ironia, a decisão do BC tinha o objetivo de ajudar o mercado. A economia, sabem os teóricos que a estudam com uma visão mais ampla, é uma ciência estreitamente relacionada com a política. Os economicistas, que acham que basta seguir o manual, não conseguem explicar coisas mínimas como essa: uma decisão, que aparentemente deveria agradar aos grandes aplicadores em papéis brasileiros, teve o efeito contrário -- afugentou os investidores; fez muitos fugirem do país comprando dólares; fez outros exigirem juros mais altos para emprestar ao país , como se vê pela alta do risco Brasil; e assim por diante. As turbulências do mercado financeiro brasileiro nos últimos dias, que parecem mais amplas do que simples reflexos de movimentos semelhantes que ocorrem no mercado financeiro internacional em função da já anunciada mudança da política de juros dos EUA, têm a ver com as dificuldades políticas do governo Lula. Como já disse o ex-ministro da Fazenda Delfim Netto, que é basicamente apoiador embora tenha críticas à atual política econômica, um setor do grande capital que tinha grandes esperanças políticas na nova administração do país parece tê-las perdido. Se o governo Lula perdeu um inesperado apoio que conseguiu da direita no ano passado, graças à sua política econômica conservadora e se ele parece estar se distanciando das bases populares e progressistas que o levaram ao poder, onde ele se apoiará? fonte: Oficina de Informações
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