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Seminário “Educação Superior no Brasil em Mudança”
# Agência FAPESP - O Seminário “Educação Superior no Brasil em Mudança” será realizado no período de 3 a 5 de agosto, em Porto Alegre (RS), como o tema central “Estado do Conhecimento, Teoria & Prática”. O evento contará com a presença de importantes pesquisadores e elaboradores de políticas públicas de educação superior.
Entre os assuntos em pauta destacam-se: “Universidade e produção do Conhecimento”, “Concepções e modelos das universidades federais”, “A universidade do Distrito Federal: da construção criadora à extinção autoritária”, “Da universidade técnica à universidade inovadora”, “Um modelo de universidade multicampi para a Amazônia” e “Universidade brasileira e internacionalização”. Mais informações: www.pucrs.br/faced/pos/universitas.
urgente e histórico .................. telesur
# Pessoal, post urgente Hoje é aniversário de Simon Bolívar e a rede Telesur está a mil! Enfim achei o canal da NET brasileira - canal 59. Chaves acaba de falar e as apresentações continuam. Presentes representantes sociais da América Latina e Caribe, inclusive Danny Glover. Nosso Norte é o Sul! depois eu posto :)) Vou assistir! Technorati Tags: telesur, jornalism, tv, movimentossociais, media
A revolução iniciada
# * publicado originalmente no Planeta Porto Alegre
John Holloway sustenta, num texto de enorme atualidade no Brasil: a idéia da transformação social está viva. O que morreu foi a crença de que é preciso começar pela “conquista” do Estado Antonio Martins Dois meses depois de iniciada a crise do governo Lula, é espantoso não ter surgido ainda, no Brasil, um debate sobre o projeto estratégico que orientou a esquerda, nos últimos 25 anos. Entre muitos, os fatos que vão se revelando a partir dos depoimentos do deputado Roberto Jefferson provocam desencanto e apatia. Outros os encaram conformados, como se adaptar-se ao jogo fisiológico da política brasileira fosse uma decorrência inevitável da chegada ao governo; e como se o importante, agora, fosse assegurar que o Estado continuará sendo gerido "pelos nossos" -- ainda que para proveito dos de sempre. Por fim, há quem insista em reduzir o drama a sua dimensão pessoal. Tudo poderia ser explicado pela traição de certos personagens históricos. Bastaria substituí-los – talvez por meio do lançamento de uma nova alternativa eleitoral – para restaurar a grandeza da proposta. Enquanto isso, adia-se a formulação das perguntas cruciais. Que resta, após o governo Lula, do plano de mudar a sociedade brasileira concentrando as energias na "conquista" do poder de Estado? A que grau de paralisia, burocratização e rendição à lógica do capital ele levou as forças que o adotaram? Quais as bases para construir um projeto alternativo? Como rearticular o dinamismo da sociedade brasileira, em sua busca por direitos e igualdade? Um desbravador e suas contradições Estudioso entusiasmado do movimento zapatista e intelectual cada vez mais presente no mundo dos Fóruns Sociais, o cientista político irlandês John Holloway tem contribuições a prestar, quando se entra neste tema. Como ocorre com todos os desbravadores, sua obra é heterogênea. Mudar o mundo sem tomar o poder, seu livro mais conhecido, foi visto por muitos como renúncia à idéia de revolução, ou concessão radical ao anarquismo. Em face do fracasso das grandes tradições revolucionárias do século XX, Holloway estaria dizendo que nos resta apenas a luta pelas pequenas mudanças. Esta impressão foi reforçada por sua participação no Fórum Social do Nordeste brasileiro (Recife, novembro de 2004). Ao abordar, num seminário promovido pela Agenda Pós-Neoliberal, as decepções provocadas pelo governo Lula, ele afirmou que todas as tantativas de transformação estão condenadas ao fracasso, enquanto vivermos sob a democracia representativa. As lutas sociais deveriam dedicar-se a exercer resistência ao capitalismo nas brechas ou fissuras do sistema. Como a ênfase de Holloway estava na negação do que ele considera velho, não foi possível compreender como esta resistência poderia, em algum momento, deixar as brechas e se espalhar pela vida social. As três hipóteses de Buenos Aires Inédito em português, o texto que Planeta Porto Alegre publica a seguir é mais afirmativo e mais claro. São as notas de outra fala, proferida em Buenos Aires, também em 2004, quando o autor participou do lançamento da edição argentina de Mudar o mundo sem tomar o poder. Nela, Holloway sustenta três pontos de vista essenciais: 1. A idéia de superar o capitalismo por meio das lutas sociais é hoje mais válida que nunca, inclusive porque os riscos de barbárie e de destruição do planeta estão se tornando maiores e mais nítidos; 2. O engano trágico das principais tradições de esquerda no século XX – tanto a “revolucionária” quanto a “reformista” – foi supor que a transformação seria feita a partir da “conquista” do Estado. Ao adotar esta perspectiva, a esquerda introduziu, no núcleo central de seu próprio projeto, um contrabando capitalista. Porque o Estado não é neutro: ao estabelecer a separação entre sociedade e poder, ele reproduz permanentemente o processo de alienação sobre o qual se constrói o capitalismo. 3. A fixação no Estado impediu que a esquerda enxergasse a revolução que já está em curso.São as múltiplas formas de fazer social que se orientam por lógicas opostas às do capitalismo. Entre tantas outras, a defesa dos direitos, como resistência e alternativa à mercantilização da vida; a prática da solidariedade, ao invés do individualismo e do egoísmo; a construção de uma cultura de paz, em resistência às guerras e à tentativa de impor a lei do mais forte nas relações sociais e entre os países. Holloway é generoso ao extremo, quando passa a relacionar as práticas capazes de criar uma nova lógica social. Sua desejo é descobrir rebeldia inclusive nas ações quotidianas. Faltar ao trabalho para passar um dia brincando com as crianças, diz ele, pode ser uma forma de agir contra o capitalismo. Mas é algo visto como frivolidade. Obcecada pelo poder, a velha tradição passou a hierarquizar as lutas. Colocou no topo da pirâmide as que abriam caminho até o Estado. E considerou todas as demais como secundárias e subordinadas. Poder, palavra de dois sentidos Como tornar mais efetivas as rebeldias do quotidiano? De que forma articular, num projeto de mudança social, os protestos gigantescos contra a guerra, a comunidade de desenvolvedores de software livre, a campanha pela anulação das dívidas do Sul e os que trocam a venda de sua força de trabalho por um dia de prazer com os filhos? Na fala de Buenos Aires, Holloway parece preocupado com este tema. Por isso, enfatiza algo que é menos evidente em seu livro, ou nas leituras apressadas que se fazem dele. Para ele, há dois sentidos na palavra poder – e um deles pode ser apropriado pelos que querem transformar o mundo. Poder sobre, diz Holloway, é a noção que serve capitalismo. É o controle privado sobre relações sociais que são, por sua natureza, coletivas; ou a possibilidade de decidir o fazer de outros. Mas há também a noção de poder fazer. Trata-se do “fluxo social do fazer”, da capacidade que temos de, juntos, recriarmos nossa vida. Holloway dá exemplos: “Depois desta reunião, teremos uma sensação mais forte de nosso poder”. Ou: “O movimento feminista deu às mulheres a noção de seu poder”. A grande questão seria, portanto, assegurar que o poder fazer prevaleça em relação ao poder sobre. Embora o autor não trate diretamente do assunto, é possível que o pensamento de Holloway ajude a compreender as possibilidades abertas pelo Fórum Social Mundial – e os desafios que ele tem à sua frente. Não-hierárquico por natureza, o FSM poderia ser visto como o espaço em que os sujeitos do poder fazer se encontram, para conhecer e potencializar mutuamente suas múltiplas ações. Um Fórum Social do “poder fazer”? A partir desta ótica, seria cada vez mais necessário incorporar ao Fórum todas as formas de iniciativa social orientadas por uma lógica não-capitalista, recusando radicalmente qualquer hierarquização entre elas. Todos são bem-vindos. Os que propõem mudanças que se chocam contra o conjunto das relações capitalistas (por exemplo, um novo sistema internacional de comércio, em oposição à OMC). Os que se travam batalhas que exigem recuos parciais do sistema (garantir a gratuidade dos tratamentos contra a AIDS, desmercantilizando o direito à vida, por exemplo). Os que dedicam parte de seu tempo a ações orientadas por novos valores, ainda que não opostas claramente ao capital (difundir a idéia do extrativismo sustentável, ou garantir apoio às vítimas do tsunami, por exemplo). O diálogo entre todas estas sensibilidades tenderia a revelar a importância de ações comuns. Para continuar com os casos já citados: a possibilidade de passar mais tempo com os filhos será multiplicada se houver uma campanha mundial bem-sucedida por uma jornada de 30 horas de trabalho por semana. E a preservação da Amazônia poderá ser efetivamente assegurada se regras comerciais novas impedirem, na prática, a venda da soja plantada em substituição à floresta. No entanto, as convergências e ações comuns no FSM deveriam continuar a ser feitas, voluntária e horizontalmente, pelas próprias organizações que se dedicam a cada tema. Isso exige provavelmente mais tempo, mas afasta os riscos de hierarquizar as lutas, ou de estabelecer, também no Fórum, relações de poder sobre. A crise brasileira e sua oportunidade As idéias de Holloway são úteis também para examinar, a partir de outra ótica, a crise brasileira. Em poucos países, o dinamismo da sociedade em busca de seus direitos é tão forte como aqui. Mesmo nas localidades mais empobrecidas e remotas multiplicam-se associações de cidadãos em favor das mais variadas causas. Algumas iniciativas políticas inovadoras, adotadas de modo autônomo pela sociedade (o plebiscito sobre a ALCA, por exemplo) tiveram alcance nacional. A irreverência, esta atitude de ironia permanente diante das autoridades e idéias estabelecidas, é um traço do caráter nacional. A ela se somou, nas últimas décadas, um movimento de afirmação de identidades que questiona as tradições senhoriais do Brasil em vários terrenos – tendo estabelecido novos padrões culturais nas relações entre etnias e sexos. E no entanto, toda esta ebulição social foi colonizada pela idéia de que o importante era a “conquista” do Estado. Na imagem projetada pela mídia de mercado, quem aparece como portador da resistência às relações capitalistas não são as múltiplas iniciativas por uma vida nova, mas a esquerda institucional. Não é de estranhar que se espalhe a sensação de fracasso... Por isso, talvez valha a pena prestar atenção, na turbulência, ao aspecto de oportunidade que todas as crises oferecem. Há um ciclo que se fecha. Há a possibilidade de abrir outro, a partir das múltiplas iniciativas em que estamos envolvidos. Haverá ousadia para dar o passo adiante? Nada está escrito, gostava dizer Lawrence da Arábia, interpretado por Peter O'Toole, num fime magnífico dirigido por David Lean, a partir de livro de T.E. Lawrence. É hora de exercitar o poder fazer... Mais sobre John Holloway: A conferência do autor em Buenos Aires, traduzida para o português por Bárbara Ablas, está aqui Vale a pena ler, também: Sua fala sobre A reinvenção da democracia, no seminário da Agenda Pós-Neoliberal durante o I Fórum Social Nordestino (espanhol) Gente comum – ou seja, rebeldes, um artigo sobre o caráter revolucionário das lutas quotidianas (inglês) A tradição do marxismo Científico , onde Holloway discute como a tradição marxista abandonou o conceito de alienação, central em Marx, e adotou o culto iluminista à ciência – o que contribuiu para diluir seu caráter rebelde (inglês). Publicado em www.planetaportoalegre.net: 18/07/2005
UFRGS: Carta da Associação de Docentes sobre reforma universitária
# O documento faz uma análise da segunda versão do Anteprojeto de Lei de Educação Superior
Eis a íntegra da carta, recebida pelo ‘JC e-mail’ nesta terça-feira: “Análise crítica do anteprojeto Em relação à primeira versão do anteprojeto, alterações significativas podem ser observadas, evidenciando uma real disposição, por parte do Governo, de escutar e considerar manifestações realizadas pelas mais variadas entidades. A Adufrgs ao apresentar a sua análise do estágio atual do anteprojeto, pretende seguir contribuindo para o seu aperfeiçoamento. Seguem-se três grandes itens: Financiamento insuficiente, Conceituação inexistente ou falha e Questões problemáticas. Em cada item, os artigos aparecem basicamente segundo a ordem de ocorrência no anteprojeto. Para cada ponto analisado, são colocados inicialmente o artigo ou artigos do anteprojeto que a ele dizem respeito e após o(s) questionamento(s). 1. Financiamento insuficiente O financiamento das instituições federais de ensino permanece vinculado ao percentual mínimo de 18% dos impostos previstos na Constituição de 1988. Portanto, são 75% dos 18% da receita resultante de impostos, conforme o artigo 212 da Constituição Federal que cobrirá os gastos de "manutenção e desenvolvimento do ensino" que correspondem à remuneração e aperfeiçoamento do pessoal docente e demais profissionais da educação; aquisição, manutenção, construção e conservação de instalações e equipamentos necessários ao ensino; uso e manutenção de bens e serviços vinculados ao ensino; levantamentos estatísticos, estudos e pesquisas visando à melhoria da qualidade e expansão do ensino; realização de atividades-meio necessárias ao funcionamento dos sistemas de ensino, como bolsas de estudo a alunos de escolas públicas e privadas, amortização e custeio de operações de crédito destinadas às ações de educação, bem como aquisição de material didático-escolar e manutenção de programas de transporte escolar. [continue lendo]
Por que Marx?
# Emir Sader Marx foi eleito, pelos ouvintes da BBC – a vetusta emissora estatal britânica, durante o terceiro mandato da “terceira via” de Tony Blair, sob o patronato teórico de Antony Giddens – o maior filósofo de todos os tempos. Por que Marx segue tão atual?
Quando a revista Time fez uma consulta aos leitores para escolher o personagem do século XX, apavorada com os resultados, fez correr a notícia de que Hitler estava em primeiro lugar, em um desesperado apelo aos leitores para brecar esse acesso de sinceridade dos que se haviam pronunciado. Uma articulação paralela levou á vitória de Einstein – em uma homenagem inócua à “ciência”, a partir da teoria da relatividade, sobre a qual a maioria esmagadora dos leitores da Time não entende o significado. Mas foi salva a cara. A BBC fez circular há algumas semanas noticia de que Marx liderava a lista dos maiores filósofos de todos os tempos em pesquisa que estava realizando, como que apelando para alguma articulação paralela que evitasse essa vitória. A revista The Economist foi buscar, no fundo do baú dos filósofos clássicos, e decidiu que aquele que poderia fazer frente ao barbudo subversivo era... David Hume – talvez considerando que o David poderia ser associado a Beckham e dar popularidade ao empirista inglês. Outros apelaram para Wittgenstein, para Kant, Nietszche e quase para Churchill. [leia mais]
Todo mundo vai virar suco
# Tese examina como a teoria econômica transformou o conhecimento em capital e a pessoa, em empresa
"O capital intelectual é a matéria-prima da qual são feitos os resultados financeiros" (Thomas Stewart) Ganhar dinheiro na bolsa, converter os lucros no carro do ano, realizar viagens internacionais também todo ano -uma passagem obrigatória por Nova York ou conhecer lugares exóticos do Oriente-, comer ao menos uma vez nos restaurantes dos grandes chefs franceses da nouvelle cuisine, colecionar quadros de artistas emergentes, quiçá ouvir óperas no festival anual de Salzburg. Esta era a parte do ideal da vida dos "colarinhos brancos" que ganhavam dinheiro na década de 70 -os yuppies. Uma escada-rolante ascendente, que levava ao paraíso do consumo, seria a melhor metáfora para descrever sua percepção da vida naqueles anos já distantes do século passado. Trinta anos depois, o personagem que está na posição daquele yuppie -o executivo de uma empresa transnacional- pinta em novas cores o seu mundo: "A dinâmica hoje do mercado é uma escada rolante que desce. É para a empresa dessa forma, em relação ao mercado, e para a pessoa com relação à empresa. É tudo uma cadeia". Agora, já não é empregado, mas "associado" ou "colaborador" da transnacional. "Terceirizado", como dizemos caboclamente. Tem lá o contrato entre a sua "pessoa jurídica" e a transnacional, mas o vínculo é tênue. - por Carlos Alberto Dória [leia mais]
Educar para além do capital
# IVANA JINKINGS Texto de apresentação ao livro "Educação para além do capital", de István Mészáros, que está sendo lançado pela Boitempo Editorial
O ensaio que dá título a este volume foi escrito por István Mészáros para a conferência de abertura do Fórum Mundial de Educação, realizado em Porto Alegre, no dia 28 de julho de 2004. Nesse texto, o professor emérito da Universidade de Sussex afirma que a educação não é um negócio, é criação. Que educação não deve qualificar para o mercado, mas para a vida. Na sessão inaugural no ginásio Gigantinho, enfatizou o sentido mais enraizado da frase “a educação não é uma mercadoria”. Em "A educação para além do capital", Mészáros ensina que pensar a sociedade tendo como parâmetro o ser humano exige a superação da lógica desumanizadora do capital, que tem no individualismo, no lucro e na competição seus fundamentos. Que educar é – citando Gramsci – colocar fim à separação entre Homo faber e Homo sapiens; é resgatar o sentido estruturante da educação e de sua relação com o trabalho, as suas possibilidades criativas e emancipatórias. E recorda que transformar essas idéias e princípios em práticas concretas é uma tarefa a exigir ações que vão muito além dos espaços das salas de aula, dos gabinetes e dos fóruns acadêmicos. Que a educação não pode ser encerrada no terreno estrito da pedagogia, mas tem de sair às ruas, para os espaços públicos, e se abrir para o mundo. Pensando na construção da ruptura com a lógica do capital, Mészáros reflete nas páginas deste livro sobre algumas questões de primeira ordem, tais como: Qual o papel da educação na construção de um outro mundo possível? Como construir uma educação cuja principal referência seja o ser humano? Como se constitui uma educação que realize as transformações políticas, econômicas, culturais e sociais necessárias? István Mészáros nasceu em 1930, em Budapeste, onde completou os estudos fundamentais na escola pública. Proveniente de uma família modesta, foi criado pela mãe, operária, e por força da necessidade tornou-se ele também – mal entrando na adolescência – trabalhador numa indústria de aviões de carga. Com apenas doze anos, o jovem István alterou seu registro de nascimento para alcançar a idade mínima de dezesseis anos e ser aceito na fábrica. Passava, assim – como homem “adulto” –, a receber maior remuneração que a de sua mãe, operária qualificada da Standard Radio Company (uma corporação transnacional estadunidense). A diferença considerável entre suas remunerações semanais foi a primeira experiência marcante e a mais tangível em seu aprendizado sobre a natureza dos conglomerados estrangeiros e da exploração particularmente severa das mulheres pelo capital. Somente após o final da Segunda Guerra, em 1945, pôde se dedicar melhor aos estudos. Começou a trabalhar como assistente de Georg Lukács no Instituto de Estética da Universidade de Budapeste em 1951 e defendeu sua tese de doutorado em 1954. Mészáros seria o sucessor de Lukács na Universidade, porém, após o levante húngaro de outubro de 1956, com a entrada das tropas soviéticas no país, exilou-se na Itália – onde lecionou na Universidade de Turim –, indo posteriormente trabalhar nas universidades de St. Andrews (Escócia), York (Canadá), e finalmente em Sussex (Inglaterra), onde em 1991 recebeu o título de Professor Emérito. Autor de obra vasta e significativa, ganhador de prêmios como o Attila József, em 1951, e o Isaac Deutscher Memorial, em 1970, Mészáros é considerado um dos mais importantes pensadores da atualidade. Sua experiência como operário que teve acesso ao estudo na Hungria socialista, em meio às grandes tragédias do século XX, foi possivelmente determinante para a compreensão da educação como forma de superar os obstáculos da realidade: István - assim como Donatella, sua companheira desde 1955 e também professora na rede pública de ensino – sempre militou em defesa da escola das maiorias, das periferias, aquela que oferece possibilidades concretas de libertação para todos. Ele alerta, porém, que o simples acesso à escola é condição necessária mas não suficiente para tirar das sombras do esquecimento social milhões de pessoas cuja existência só é reconhecida nos quadros estatísticos. E que o deslocamento do processo de exclusão educacional não se dá mais principalmente na questão do acesso à escola, mas sim dentro dela, por meio das instituições da educação formal. O que está em jogo não é apenas a modificação política dos processos educacionais – que praticam e agravam o apartheid social –, mas a reprodução da estrutura de valores que contribui para perpetuar uma concepção de mundo baseada na sociedade mercantil. Mészáros sustenta que a educação deve ser sempre continuada, permanente, ou não é educação. Defende a existência de práticas educacionais que permitam aos educadores e alunos trabalharem as mudanças necessárias para a construção de uma sociedade na qual o capital não explore mais o tempo de lazer, pois as classes dominantes impõem uma educação para o trabalho alienante, com o objetivo de manter o homem dominado. Já a educação libertadora teria como função transformar o trabalhador em um agente político, que pensa, que age, e que usa a palavra como arma para transformar o mundo. Para ele, uma educação para além do capital deve, portanto, andar de mãos dadas com a luta por uma transformação radical do atual modelo econômico e político hegemônico. Estudioso da obra de Marx, Mészáros acredita que a sociedade só se transforma pela luta de classes. Limitar, portanto, uma mudança educacional radical "às margens corretivas interesseiras do capital significa abandonar de uma só vez, conscientemente ou não, o objetivo de uma transformação qualitativa. [...] É por isso que é necessário romper com a lógica do capital se quisermos contemplar a criação de uma alternativa educacional significativamente diferente". Usando como referência duas grandes figuras da burguesia iluminista – o economista Adam Smith e o educador utópico Robert Owen –, o autor deste livro advoga que o capital é irreformável porque, pela sua própria natureza, como totalidade reguladora sistêmica, é incontrolável e incorrigível. Seria, desse ponto de vista, absurdo esperar uma “formulação de um ideal educacional, do ponto de vista da ordem feudal em vigor, que considerasse a hipótese da dominação dos servos, como classe, sobre os senhores da bem estabelecida classe dominante”. Naturalmente, o mesmo vale para a alternativa hegemônica fundamental entre capital e trabalho. Não surpreende, portanto, que “mesmo as mais nobres utopias educacionais, anteriormente formuladas do ponto de vista do capital, tivessem de permanecer estritamente dentro dos limites da perpetuação do domínio do capital como modo de reprodução social metabólica". Pequeno em tamanho, "A educação para além do capital" é um livro imenso em esperança e determinação. Nele, o filósofo marxista condena as mentalidades fatalistas que se conformam com a idéia de que não existe alternativa à globalização capitalista. Em Mészáros, educar não é a mera transferência de conhecimentos, mas sim conscientização e testemunho de vida. É construir, libertar o ser humano das cadeias do determinismo neoliberal, reconhecendo que a história é um campo aberto de possibilidades. Esse é o sentido de se falar de uma educação para além do capital: educar para além do capital implica pensar uma sociedade para além do capital. Aos leitores que queiram conhecer melhor as opiniões de István Mészáros sobre educação, sugiro a leitura do capítulo “A alienação e a crise da educação”, sobre as utopias educacionais, em Marx: a teoria da alienação, a ser publicado pela Boitempo em 2005. Nessa obra, o pensador húngaro reafirma a necessidade de transcender as relações sociais de produção capitalistas, com o objetivo de conceber uma estratégia educacional socialista. Ele discute nesse texto o conceito de “educação estética”, tentativa isolada de enfrentar a desumanização do sistema educacional na sociedade capitalista. E conclui que a superação positiva da alienação é tarefa educacional que exige uma “revolução cultural” radical para ser colocada em prática. A tradução que aqui se apresenta foi feita a partir do original em inglês "Education Beyond Capital", por Isa Tavares, com texto final de Sérgio Luiz Mansur e Luis Gonzaga Fragoso. A revisão técnica coube à professora de Sociologia da Unesp, Maria Orlanda Pinassi. Nos textos de Mészáros, as notas de rodapé numeradas são do autor; as indicadas com asterisco são dos revisores da tradução e vêm marcadas no final com (N.R.T.). Registro o agradecimento da editora a Sebastião Salgado, que autorizou o uso da foto (uma menina fazendo os deveres escolares e tomando conta dos irmãos enquanto a mãe trabalha) que ilustra a capa deste livro, cujos direitos autorais – assim como de toda a obra de Mészáros publicada pela Boitempo no Brasil – foram cedidos para o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, o MST. 14/07/2005 - Ivana Jinkings é editora da Boitempo
Rumo ao "capitalismo total"?
# Dany-Robert Dufour [Le Monde Diplomatique, edição brasileira, ano 2, nº22] O neoliberalismo não visa apenas à destruição das instâncias coletivas construídas ao longo do tempo (família, sindicatos, partidos e, de uma maneira mais geral, a cultura), mas também à da forma indivíduo-sujeito surgida durante o período moderno (1). A fábrica do novo sujeito "pós-moderno", não-crítico e "psicotizante", resulta de um projeto perigosamente eficiente, no centro do qual se encontram duas importantes instituições que se dedicam devotadamente à sua execução: a televisão e uma nova escola, sensivelmente alterada por trinta anos das chamadas reformas democráticas" - que sempre operaram no sentido de enfraquecer a função crítica. O embrutecimento das crianças pela televisão começa muito cedo. Quando chegam à escola, já vêm empanturradas da telinha desde a mais tenra idade. O fato de se verem diante de um televisor antes de falarem é novo, do ponto de vista antropológico. O consumo de imagens chega a cinco horas por dia, nos Estados Unidos. O COLAPSO DO UNIVERSO SIMBÓLICO A inundação do espaço familiar por essa torneira permanentemente aberta, de onde escorre um fluxo ininterrupto de imagens, tem efeitos consideráveis na formação do futuro sujeito. É comum questionar-se o conteúdo mesmo das imagens, denunciando, por exemplo, a sua violência, sem se ter consciência de que o próprio veículo pode ser perigoso, transmita ele o que transmitir. Aliás, entre os contos infantis contados pelas vovós de antigamente havia inúmeros ogros devoradores de criancinhas que nada deixam a desejar às imagens gore atualmente transmitidas. Mas não se pode deixar de levar em consideração a diferença entre o universo nitidamente imaginário do ogro do conto - obrigando a criança a pensá-lo como outro mundo (o da ficção) - e o universo muito realista dos seriados com violência, estupro e assassinato, sem se distanciar do mundo real. É claro que a televisão, pelo lugar preponderante ocupado por uma publicidade onipresente e agressiva, constitui uma autêntica submissão precoce ao consumo. Mas, voltando à mesma tecla: a questão não está somente no conteúdo das imagens, mas também na própria forma. Em primeiro lugar, com a televisão, é a família - enquanto meio de transmissão entre gerações e cultural - que é reduzida a sua mínima expressão. O termo "filhos da televisão", tomado ao pé da letra, revela que a televisão efetivamente seqüestrou a função educativa dos pais junto aos filhos. Essa redução de tempo para a transmissão entre gerações produz efeitos bastante nítidos, podendo chegar ao colapso do universo simbólico e psíquico. O ACESSO À FUNÇÃO SIMBÓLICA O universo simbólico refere-se à capacidade essencial que distingue o homem dos animais: a de falar, identificando-se a si próprio como sujeito falante e dirigindo-se a seus semelhantes a partir dessa referência, enviando-lhes sinais que supostamente representam alguma coisa. Para ter acesso à função simbólica, basta fazer seu, integrando-o, um sistema onde o "eu" (presente) fala a "você" (co-presente) sobre "ele" (o ausente, ou seja, alguém ou alguma coisa que se trata de re-presentar) (2). Essas referências simbólicas fundamentais permitem as distinções básicas entre o eu e o outro, o aqui e o ali, o antes e o depois, a presença e a ausência. Ao garantir o acesso à função simbólica e a uma certa integridade psíquica, esse sistema transmite-se essencialmente por intermédio do discurso: os pais falando à criança. Falar significa transmitir relatos, crenças, nomes próprios, genealogias, ritos, obrigações, saberes, relações sociais... mas, antes de tudo, a própria palavra. Significa transmitir de uma geração à outra a aptidão humana de falar, de forma a que a pessoa a quem se fala possa, por sua vez, identificar-se no tempo (agora), no espaço (aqui), como si (eu) e, a partir dessas referências, convocar em seu discurso o resto do mundo. O discurso oral frente-a-frente institui a faculdade de falar em registro duplo: o discurso é sonoro ou gestual e transporta imagens mentais ? quando o outro me fala, vejo o que ele quer dizer. É essa transmissão entre gerações do discurso que a televisão pode ameaçar. CONFUNDINDO O UNIVERSO SIMBÓLICO Caso as referências simbólicas de tempo, de espaço e de pessoa não estejam bem fixas, a imagem externa torna-se uma espécie de conexão mais ou menos ligada às imagens internas - ou fantasmas - que assombram o aparelho psíquico e cuja chave é desconhecida, inclusive, de quem a tem em seu poder. As imagens podem, portanto, agredir quem as vê, sem se fixar nem se encadear, num processo cumulativo controlável, colocando o sujeito sob sua dependência. Nesse caso, o uso da televisão ameaça afastar ainda mais o sujeito do controle das categorias simbólicas de espaço, tempo e pessoa. Ela mistura sua percepção, aumenta a confusão simbólica e fúrias fantasmagóricas. É, então, a capacidade discursiva do sujeito que é questionada. Não somente o uso da televisão é incapaz de suprir as insuficiências na simbolização, o que se poderia ingenuamente ser levado a crer, como pode confundir ainda mais os acessos a ela (3). Esta observação é válida para qualquer prótese sensorial: não apenas para a tele-visão, mas qualquer outra forma de tele-mática que envolva a tele-presença, ou seja, tudo o que transporte um "aqui" para "lá" e um "lá" para "aqui": vídeo games, telefones celulares - que as pessoas passaram a usar 24 horas por dia -, Internet... Percebem-se, por toda parte, os riscos de decuplicar as competências de umas pessoas e de aumentar a confusão de outras. Alguns sujeitos chegam a tornar-se seres quase emancipados das obrigações espaço-temporais, enquanto outros perdem a noção de viver em qualquer espaço-tempo. O ENSINO, UMA "TENDÊNCIA ARCAICA" São basicamente os "filhos da televisão" que se encontram hoje na escola. É fácil, portanto, compreender a razão pela qual inúmeros professores são levados à amarga constatação de que as crianças que ali estão "já não são alunos", "já não ouvem" (4). E, provavelmente, já não falam. Não porque se tenham tornado mudos, muito pelo contrário: mas enfrentam uma enorme dificuldade em se integrar à seqüência do discurso que distribui, de forma alternada, cada um a seu lugar: aquele que fala, aquele que escuta. Não conseguem penetrar no discurso que, na escola, permite a uma pessoa (o professor) propor questões baseadas na razão (ou seja, num saber múltiplo, acumulado ao longo das gerações anteriores e permanentemente reatualizado), e à outra pessoa (o aluno) discuti-las da forma que lhe aprouver. É evidente que um bom número de professores não poupa esforços e se desgasta, às vezes de maneira excessiva5, para tentar fazer com que os jovens entrem em sua posição de aluno, de forma a que, também eles, possam desempenhar seu ofício de professor. E eis aí a novidade: como os alunos foram impedidos de se tornarem alunos, os professores são, cada vez mais, impedidos de exercer a sua profissão. Após trinta anos das chamadas reformas "democráticas", dirigentes políticos e especialistas em pedagogia não se cansam de lhes dizer que deveriam desistir de sua pretensão arcaica de ensinar. Claude Allègre, por exemplo, ex-ministro da Educação, advertia os professores, dizendo-lhes que deveriam desistir de sua "tendência arcaica" e dar-lhe ouvidos: "Basta ouvirem o que eu digo. Eu sei do que falo." E, no lugar do termo "aluno", introduzia uma nova categoria, "os jovens", dos quais dizia: "O que os jovens querem é inter-reagir." (6) A VIOLÊNCIA NA ESCOLA Em nome da democracia na escola, ratifica-se, dessa forma, o fato de que já não existem alunos. Para que serviriam, então, os professores? Nos discursos dos dirigentes e dos especialistas em pedagogia, o modelo educacional que prevalece, em oposição a esse suposto "arcaísmo", acaba sendo o do talk show televisivo, em que cada participante pode, "democraticamente", opinar. Tudo se torna, portanto, uma coisa intersubjetiva. Acaba-se o esforço crítico necessário à reversão do próprio ponto de vista, para ter acesso a outras questões, um pouco menos estreitas, menos falaciosas e melhor construídas. O que se tornou intolerável é o fato de que o professor é que conduz, que empurra constantemente os alunos na direção da função crítica. É ele que deve ser abatido, pois ele não respeita a opinião do "jovem". Vários especialistas em pedagogia "explicam" a violência na escola de seguinte forma: os "jovens" estariam reagindo à autoridade indevida dos professores. Se são obrigados a recorrer à violência e submetidos a uma relação de força, isso é porque não lhes foi possível qualquer outra alternativa: foram produzidos para escapar à relação de sentido e a paciente elaboração discursiva e crítica. Nesse sentido, não é difícil prever - inversamente ao processo pedagogista que acusa o professor de violência - que quanto menos participarem da relação professor-aluno, mais os alunos estarão sujeitos à violência. FABRICANDO IMBECIS E TRAPACEIROS? Com o abandono da relação de sentido e a eclosão da relação de força, o que acaba prevalecendo é, nada mais, nada menos que a "escola do capitalismo total", segundo Jean-Claude Michéa (7). Ou seja: uma escola que, desprovida de senso crítico, forme indivíduos inconstantes e indecisos, receptivos a quaisquer pressões de consumo. Nessa escola de massa "a ignorância será ensinada de todas as maneiras concebíveis". Os professores deverão, pois, ser reeducados sob o comando dos especialistas em pedagogia, que lhes mostrarão a desnecessidade de ensinar para passar a confiar exclusivamente nos sentimentos do momento e em sua vitoriosa gestão. Trata-se, portanto, de impor as condições, segundo Michéa, de uma "dissolução da lógica": deixar de distinguir o importante do secundário, aceitar de forma impassível uma coisa e o seu oposto... Na própria universidade, por exemplo, há uma corrente pedagógica que se insurge, recusando-se a pedir aos "jovens" que pensem. Seria o caso de distrai-los, diverti-los, deixá-los à vontade, brincando "democraticamente" com seus controles remotos segundo a vontade de suas inter-ações, fazê-los contarem suas vidas, mostrar-lhes que os conhecimentos da lógica não passam de abusos de poder. Trata-se, principalmente, de demonstrar que não há o que pensar, que não há objeto de reflexão: tudo se resumiria à afirmação de si e a uma gestão relacional da afirmação de si que conviria saber defender, como sabe fazer qualquer consumidor que se preze. Será que se trataria de fabricar imbecis trapaceiros, adaptados ao consumo? A EXCEÇÃO DAS ELITES É provável que os pedagogos não queiram isso: só querem adaptar-se ao estado em que encontram os "jovens" na escola. Ao fazê-lo, em nome da compaixão, contribuem para agravar a situação e para destruir ainda mais a escola. Esse uso dos serviços dos pedagogos fornece mais um exemplo da forma pela qual o neoliberalismo soube aproveitar-se, em seu favor, dos esquemas libertários da década de 60 (8). As instituições de ensino, inclusive a universidade, passam, portanto, a receber populações hesitantes, cuja relação com o saber se tornou uma preocupação bastante acessória. Um novo tipo de instituição, fluida - cuja pós-modernidade detém o segredo, a meio-caminho entre casa da juventude e da cultura, entre hospital e abrigo social, semelhante a esses parques de interesse escolar - está em vias de surgir. Não exclui certas zonas residuais de produção e reprodução do saber, onde novas tecnologias são chamadas para os papéis principais ("As tarefas repetitivas do professor serão todas gravadas e arquivadas", prometia alegremente o ex-ministro na entrevista já citada). No meio tempo, a formação e reprodução das elites (outra função primordial da "escola do capitalismo total") serão, cada vez mais, exclusivamente garantidas pelas "Grandes Escolas" e similares, ou, de preferência, pelas melhores escolas e universidades privadas norte-americanas (com despesas de escolaridade que chegam a 30 mil dólares por ano). Essas instituições, que continuam funcionando segundo um rigoroso modelo crítico, não são de forma alguma objeto do questionamento dos pedagogos, o qual se destina às massas. A fábrica de indivíduos desprovidos da função crítica e passíveis de uma identidade inconstante e hesitante não é, portanto, obra do acaso: ela é perfeitamente assumida pela televisão e pelas escolas atuais. O sonho do capitalismo não é apenas o de levar o território da mercadoria aos confins do mundo (o que já ocorre, sob o nome de globalização) - transformando tudo em objeto de comércio (direitos sobre a água, o genoma, as espécies vivas, a compra e venda de crianças, de órgãos...) - mas também o de trazer os velhos assuntos privados, que até agora eram da alçada individual (subjetivação, sexuação...) para o âmbito da mercadoria. Desse ponto de vista, vivemos hoje um momento crucial, pois se a forma sujeito for atingida, já não serão somente as instituições que temos em comum que estarão ameaçadas, mas também, e principalmente, o que nós somos. E então, nada mais conseguirá conter um capitalismo total em que tudo, sem exceção, fará parte do universo mercantil: a natureza, os seres vivos e o imaginário. Notas: 1 Ler, de Dany-Robert Dufour, "As angústias do indivíduo-sujeito", Le Monde diplomatique, fevereiro de 2001. A modernidade, segundo o grande historiador Fernand Braudel, nasce "em algum lugar, entre 1400 e 1800": é, portanto, contemporânea do capitalismo. 2 Ler, de Dany-Robert Dufour, Les mystères de la trinité, ed. Gallimard, Paris, 1990. 3 Um filme de 1993, Benny's vídeo, de Michale Haneke, dá uma idéia, bastante eloqüente e assustadora, do que poderia ser essa confusão. Trata-se de um adolescente que mantém com seus pais relações estritamente funcionais e que se relaciona com o mundo exclusivamente por meio das telas de vídeo. Quando uma pequena parte desse mundo surge diante de si (uma garota), ele reage de uma forma completamente escabrosa (um crime, no caso). 4 Ler, de Adrien Barrot, L'enseignement mis à mort, ed. Librio, Paris, 2000. 5 Exemplo disso são os inúmeros casos de "depressão pelo ensino", que o ex-ministro Claude Allègre dizia tratarem-se de um abuso de licenças médicas. 6 Le Monde, 24 de novembro de 1999. 7 Ler, de Jean-Claude Michéa, L'Enseignement de l'ignorance, ed. Climats, Castelnau, 1999. 8 Sobre a integração da contestação anarquista ao neoliberalismo, ler, de Luc Boltanski e Eve Chiapello, Le Nouvel esprit du capitalisme, ed.
G8 pela Dissent
# Ele voltou :) E começou a contar: pulo o dia 5, porque estava em glasgow, trancado em um apartamento, niveis de paranoia batendo no teto, montando a infoline para a qual as pessoas que estariam organizando os bloqueios no dia seguinte podiam ligar para ter informacao de como as coisas estavam correndo em outras partes. parece que foi bastante util na madrugada e na manha do dia 6; no tempo em que eu trabalhei nela (do meio-dia a meia-noite do dia 5) estava bem devagar. depois de ter ironizado tanto a marcha organizada pelo g8 alternatives, conclui que a unica maneira de sair de glasgow e ir a um lugar onde haveria a chance de pelo menos acontecer alguma coisa era... pegar um onibus do 'g8 alternatives' e ir a gleneagles! achei que morreria de tedio, mas mal sabia eu. >> continua aqui
Entrevista com Chico de Oliveira
# O PT não é mais o mesmo; trocou um projeto de nação por um de poder
por Anamárcia Vainsencher e Tatiana Merlino do Brasil de Fato O Partido dos Trabalhadores cresceu na esteira do fim da ditadura militar, mas rapidamente se transformou na maior máquina partidária do país, não mais alimentada por qualquer projeto popular e democrático, mas movida por interesses econômicos e empenhada na manutenção do poder. O sociólogo Chico de Oliveira, um dos fundadores do PT, afirma ao Brasil de Fato que as vias de luta da esquerda precisam mudar, já que os partidos não têm mais interesse por política. Mas o caminho é, justamente, político. Brasil de Fato - Que PT é esse que faz aliança com o PL, rasga seus princípios, e chama Roberto Jefferson de companheiro? Francisco de Oliveira - Quem reconhece o PT por essa descrição? Não é mais o Partido dos Trabalhadores. Na história da esquerda mundial, os antigos partidos social-democratas levaram pelo menos 100 anos para se transformar em partidos da ordem. O PT levou três anos, desde a Carta ao Povo Brasileiro. BF - Por que no Brasil a transformação foi tão rápida? Chico de Oliveira - O PT cresceu muito depressa porque tivemos uma ditadura militar que deu uma extraordinária força aos movimentos sociais. Ainda não estudamos isso direito porque a esquerda brasileira sempre foi anticlerical e antiigrejeira. BF - E o PT nisso tudo? Chico de Oliveira - O PT foi uma espécie de vertedouro deste enorme movimento. E cresceu como os bons pasteleiros fazem. O PT cresceu bem, e se transformou na maior máquina partidária do país. Não há outra igual. O PSDB é uma máquina plutocrática que só tem a parte de cima, não tem base. O PT de agora não é mais o PT original, mas não foi tudo automático. Houve escolhas políticas dentro do PT. BF - Na chegada ao poder ou antes? Chico de Oliveira - A chegada ao poder é uma espécie de desastre, expõe a fratura, não é o momento da transformação. A fratura ocorreu em 2002, com a Carta ao Povo Brasileiro, e os dois anos e meio de governo. Aí, os problemas criados pela organização burocrática ficaram expostos. O PT é uma formidável máquina burocrática. Dos vereadores até em cima, cada um tem um corpo de assessores. Isso já forma uma massa de interesses materiais. Não é ideologia, não, é interesse material, é emprego. O PT emprega uma massa formidável de gente, e isso passa a influir no partido. BF - Igualzinho ao PSDB? Chico de Oliveira - Não, o assessor do PT tem uma diferença radical em relação ao do PSDB. Ambos têm interesses materiais, querem manter o emprego, mas o do PT tem ligação com o partido enquanto projeto político. Um projeto político de poder. Essas duas coisas fazem com que a máquina do PT seja realmente uma máquina de guerra partidária. A do PSDB não funciona assim. O PFL não tem máquina partidária, tem interesses fisiológicos e materiais. BF - Mas o PT não tinha um projeto de nação? Chico de Oliveira - Não, não tinha. Quem tinha projeto de país na formação do PT era o pessoal que veio da luta armada. O José Dirceu tinha. Essa senhora Dilma Roussef também. Era um projeto de transformação radical, socialista. Na formação do PT, o projeto dos católicos era um projeto ético. A terceira força, a principal na fundação, eram os sindicalistas, que não tinham projeto de país. O novo sindicalismo que surge é muito apolítico, anti-político, até. BF - Antes, quem teve um projeto popular e democrático no país? Chico de Oliveira - Os militares tinham um projeto de país conformado dentro de um projeto de potência. O projeto popular e democrático morreu em . Os sindicalistas são todos neófitos em política, têm uma enorme ignorância sobre o que é Estado, o que é República. O Lula era nitidamente antipolítico. Em 74, ele dizia que ao trabalhador interessa salário, não política. BF - Qual a importância de um projeto nacional? Qual a diferença entre projeto nacional e projeto de poder? Chico de Oliveira - No projeto nacional, a formação da nação é a finalidade primeira de um partido. Já o projeto de poder coloca o poder antes da nação. Então, na medida em que o PT cresceu e se burocratizou, o projeto de poder passou à frente do projeto de nação, e terminou se convertendo em seu fim. BF - O que a direita quer? Chico de Oliveira - Duas coisas: poder e dinheiro. Dinheiro, tem. Não tem poder algum. A direita política hoje é o PSDB. BF - Eles têm o Banco Central, a Fazenda, o que mais querem? Chico de Oliveira - Não têm, não. Aqui temos um fenômeno muito sério, muito importante e muito grave. A economia colonizou a política. Não existe mais política. Há objetivos econômicos e manutenção de crescimento. É por isso que o Banco Central foi dado ao Henrique Meirelles. Não porque ele é PSDB, mas porque é um elo importante na cadeia da junção com os credores, com o capital financeiro em geral. Os tucanos lutam como se a política ainda tivesse importância, e não tem mais. No mundo capitalista não tem mais. BF - Então, o que fazer? Chico de Oliveira - Política. Exatamente porque ela não é importante para os capitalistas, ela tem que ser para nós. BF - Mas como e por quais vias, se os partidos se desmancham? Chico de Oliveira - Não se sabe. Temos que inventar novas formas. Os partidos estão em forte erosão. Dentro dessa colonização da política pela economia, os partidos são as principais vítimas. Porque os debates todos que estamos vendo sobre a corrupção têm por objetivo a discussão dos cargos nas estatais. Porque a política é irrelevante. O importante é ter um homem forte num lugar forte, onde se decide a aplicação da grana, do excedente econômico. Por isso eles se debatem e se comem feito uns loucos atrás disso. BF - Como assim? Chico de Oliveira - Por exemplo, o que se passou com uma importante reforma como a do Judiciário? Ela quase passou em branco. Além dos advogados, dos juízes, dos interessados na máquina e na estrutura do poder Judiciário, quem mais discutiu a reforma que passou? Qual foi o sindicato de trabalhadores que fez algum debate sobre a reforma? Qual o partido político que debateu a reforma? Nenhum. Mas só se muda a situação fazendo política, porque é a única forma que se tem de atuar. Se você não é proprietário, não está no mundo das grandes finanças, como você age na sua sociedade? Fazendo política. As formas velhas ainda são eficazes? Duvido. E as novas, temos que achá-las. BF - Quem está procurando? Chico de Oliveira - Muito pouca gente. Do lado dos cientistas políticos, há um enorme regozijo porque todas as instituições estão funcionando. A sociologia passou para o minimalismo. As grandes narrativas desapareceram do campo das ciências sociais. É uma sociologia que se dedica a - perdoem-me a irreverência - discutir a cor das calcinhas de Odete. Ela está preocupada com o cotidiano. No meu tempo se dizia: isso é firula. BF - Resta-nos a utopia? Chico de Oliveira - Reinventá-la. Todo mundo está contente. Estamos na quinta eleição presidencial contínua, sem interrupções. As instituições agüentaram o impeachment de um presidente sem se abalar. E os fundamentos econômicos estão ótimos, dizem os economistas. BF - E o povo? Chico de Oliveira - O povo é um acidente, foi um engano de Deus, que no dia da preguiça criou o povo. A política é irrelevante. As discussões de corrupção são em cima dos cargos. A política propriamente não é discutida. A coisa da reforma do Judiciário foi bem sintomática. Se fosse na época do Jango, pegava fogo. O Judiciário é uma peça importantíssima da política. No Banco Central, o presidente e os diretores são indicados pelo presidente da República, e o Senado tem que aprovar. Primeira distorção: devia ser a Câmara e não o Senado, porque o BC não discute só os interesses da Federação, toca nos interesses do povo. Quando ele decide sobre a taxa de juros está decidindo no seu bolso. Eu costumo dizer que a sabatina do "Show do Milhão" é mais complexa do que a do Senado para aprovar o presidente do BC. BF - Um dos argumentos da direção do PT para justificar os recuos do governo era a correlação de forças desfavorável para um projeto de esquerda. Isso é verdade? Não era possível uma outra política econômica? Chico de Oliveira - Isso é uma bobagem, porque se você só faz a política que a correlação de forças permite, você só faz a política conservadora, que é o que resultou. E é outra bobagem, porque a política é precisamente o único meio que você dispõe para corrigir as assimetrias de poder que a economia cria. Num sistema capitalista, o poder é assimetricamente constituído. A política é o meio de corrigir isso. Se você não faz essa correção da economia pela política, o que é que você faz? Isso que está aí. BF - E por que o governo optou por essa governabilidade ao invés de ir à procura dos movimentos sociais? Chico de Oliveira - Minha tese está num artigo que ainda não foi publicado e que sairá junto com outros em um livro chamado A Era da Indeterminação. É a seguinte: ocorreu uma enorme transformação na sociedade, no capital e na propriedade, e portanto na relação com o Estado. Isso o PT nunca entendeu. A fraqueza teórica do PT é essa. Ele achou que o governo Fernando Henrique Cardoso era um governo entreguista, antinacionalista, e toda questão residia em ter vontade política. Ele nunca entendeu que o FHC botou o país de cabeça para baixo, e isso vale também para o MST. Eles nunca entenderam que ao privatizar, a tal correlação mudou de uma forma que é muito difícil controlar. Eles privatizaram 15% do PIB. Uma escala sem comparação na experiência mundial. Só a Argentina fez uma coisa semelhante e deu com os burros n'água. BF - Quer dizer que a esquerda não entendeu o que FHC fez ao país? Chico de Oliveira - O Brasil mudou muito e o PT não levou isso a sério, não sabia do que se tratava. O PT estava preocupado com a roubalheira nas privatizações. Como meu mestre Ignácio Rangel já dizia, a corrupção é um condimento do capitalismo. O problema só existe quando ela se transforma no prato principal. Mas isso não tem nenhuma importância do ponto de vista econômico. Do ponto de vista político tem. BF - Por que não é problema do ponto de vista da economia? Chico de Oliveira - Porque a economia é um circuito fechado. O dinheiro não sai dela. Se sair, não vale nada. Então, mesmo quem roubou, vai ter que aplicar o dinheiro. A economia é um sistema fechado, não sai nada dele. O que sai são os pobres, esses saem e vão bater no inferno. Houve roubalheira nas privatizações, para onde foi o dinheiro? Sabese mais ou menos. Qual é o efeito disso na economia? Nenhum. BF - Afinal, onde está o prejuízo que FHC causou ao país? Chico de Oliveira - Do ponto de vista do Estado brasileiro, da correlação de forças, as privatizações foram um fato grave. Com elas, mudou a estrutura da propriedade econômica no interior da mesma burguesia, mudou a relação dela com os trabalhadores, mudou as relação dela com o Estado, e o Estado perdeu uma arma poderosa de fazer política econômica. E o PT nunca entendeu isso. BF - As Parcerias Público-Privadas (PPPs), não vão privatizar o que sobrou do Estado? Chico de Oliveira - As PPPs são uma ficção de que a taxa interna de poupança é insuficiente, então se traz capital privado e ele se une ao Estado para fazer certos empreendimentos. Estas parcerias vão privatizar o resto do Estado, mas de uma forma engraçada, com financiamento público. Você está pagando para o outro levar. Foi o que o BNDES fez com as privatizações. Ele emprestava para privatizar a empresa estatal. Isso, economicamente, não tem qualquer importância. A importância é política, na capacidade de o Estado fazer política. O PT chegou ao poder nesse novo quadro e continua a não entender. Ele ainda não prestou atenção na poderosa reformulação que houve no Estado brasileiro, no governo passado. BF - A relação público-privado mudou com as privatizações. O privado avançou sobre a coisa pública... Chico de Oliveira - Avançou. Retirou-se do Estado elementos que lhe possibilitavam fazer política econômica, industrial, de investimentos. Sua função, hoje, é ditatorial. É uma ditadura muito complicada porque ela se dá por formas legais. A função do Estado na periferia, em países como o Brasil, é gerenciar a crise permanentemente e de forma ad hoc. Essa forma localizada aparece nas políticas socias. Se não há como redistribuir a renda, inventam-se políticas como Bolsa Família, Fome Zero, que não funcionam para o que seria seu objetivo principal, melhorar a distribuição de renda. Mas funcionam enquanto focalização, e mantêm a pobreza. Você não tira ninguém da pobreza como 50 mil réis por mês. Isso é brincadeira. BF - E esse povo que acreditou na eleição do Lula, como fica depois dessa enxurrada de denúncias de corrupção? Chico de Oliveira - A identificação do povão com o Lula não é fácil de destruir. Lula é uma enorme fraude, e acho que ele perderá a reeleição. Uma parte do povo continuará fiel a Lula, não ao PT. BF - As classes sociais estão acabando? Chico de Oliveira - Elas estão se derretendo. É um fenômeno diferente de acabar. O famoso operariado argentino se reconhecia de olhar, até pelo vestuário. Essa classe operária acabou, foi detonada pelo movimento de desindustrialização. Há todo um trabalho de reconstrução política na Argentina, mas sua duração é uma incógnita. Mas está melhor do que no Brasil, dez pontos à frente. No Brasil, como é que você pode ter classe social com uma taxa de desemprego de 20% e uma taxa de informalidade de 50%? Como é possível haver classe? Como a política atua representando uma coisa que não existe? BF - Viramos um grande lumpesinato? Chico de Oliveira - Viramos. Com a diferença de que é um lumpesinato que trabalha, mas em biscate, vende bagulho na rua. Qual é a política institucional que pode tirar forças dessa informalidade? É realmente trágico, não é pessimismo. Então a política começa a flutuar como se estivesse levitando, descolada da realidade. Essa é a política institucional. As instituições políticas levitam. A melhor metáfora para essa situação é aquele plasma que sai dos vulcões. É uma massa sem forma, porque se chama isso de trabalho informal, que não tem forma. Como a política representa algo que não tem forma? Então ela levita sobre o real. BF - Não há nada a fazer? Chico de Oliveira - Temos que achar novas formas de atuar sobre isso, o que é extremamente difícil. Nem a palavra de ordem revolução faz sentido. O que quer dizer essa palavra para um morador da favela? É quase esperanto, uma língua que poucos falam. Revolução não tem plausibilidade para os favelados. Para atuar politicamente, tem que ser plausível que a sua promessa se cumpra. A política precisa de previsibilidade, caso contrário, não funciona. É preciso ser plausível para mim e para você que a igualdade possa existir. Não é preciso que ela exista, mas que seja plausível que ela possa existir. A igualdade é plausível para um morador da Rocinha? Você acha que ele pode atuar conseqüentemente tendo em vista o objetivo da igualdade? Não. Então isso se transforma numa guerra privada. Quando a igualdade não é plausível, todo instinto de sobrevivência se transforma numa guerra privada. Para isso, não é preciso de cultura geral, tem que estar na escala do alcançável. O morador da Rocinha tem que acreditar que é alcançável através desses meios, se não é um discurso que levita. BF - A situação do país, do PT, do governo Lula contribuiu para que tudo andasse para trás? Chico de Oliveira - O pior prejuízo da gestão Lula está exatamente nisto. Não é o campo da esperança no sentido bobo. É o campo de que seja plausível para a sociedade que ela possa se reformar, atingir certos objetivos. Se não, desaparece o campo da política. Ela é colonizada pela economia, também entre os pobres, mas de uma forma perversa . É o campo do imediato. Você tem que conseguir a sua sobrevivência naquele dia. E ponto. Não tem projeto de futuro.Então você assalta, mata e rouba. Não tem nada a perder, e isso é concreto. E hoje eu não passo fome. BF - A sensação é que não existe Estado no Brasil... Chico de Oliveira - A sociedade foi colonizada também por outro lado. E esse é o maior dano desse governo - a ilusão de que o Estado desapareceu. Mas ele está em todas as políticas sociais que existem. Para cada carência, há uma política do Estado. Para cada grupo social, há uma política específica, onde estão todos pendurados. O Estado não desapareceu, o que desapareceu foi a comunidade política. Essa, aqui, chegou a um ponto caricatural. Antes do Lula unificar tudo no Bolsa Família, havia até vale gás. O Estado está presente em tudo isso, o que cria um vasto clientelismo, que é onde o Lula vai se ancorar. BF - Mas essas políticas sociais acabam com a pobreza? Chico de Oliveira - Não. Permitem a simples sobrevivência. É o que o filósofo italiano Giorgio Agamben chama de vida nua, o limite da sobrevivência. O extrato mais pobre da sociedade está todo pendurado em políticas de exceção, e a tarefa do Estado consiste nisso. Não se pretende diminuir a desigualdade, eliminar a pobreza. Quem é beneficiado pelo Bolsa Família não muda de classe social. Programas como esse apenas contemplam os gastos mínimos de sobrevivência. É nisso que se resume a política estatal para os setores mais pobres. BF - É a morte anunciada de políticas de universalização? Chico de Oliveira - Com a enorme desigualdade, as políticas universais danaram-se todas. A normalidade é a pessoa ter emprego, endereço fixo, CPF. Com isso, a política universal funciona. Digamos que estamos no melhor dos mundos: abriu a escola, tem professor, tem endereço da escola, está tudo bem, mas as crianças não conseguem chegar porque não têm roupa. Então o município vai e dá o uniforme. Na minha época, eu estudei em grupo escolar e minha mãe podia comprar o meu uniforme. A política universal era plausível. Hoje, não pode, porque os pais não têm um puto para vestir a criança, a cidade fragmentou-se de tal maneira que não há como ir a pé de casa para a escola. E nenhum de nós deixa o fi lho ir para a escola sozinho. Todas as condições da universalização foram rompidas. BF - Resta ao Estado... Chico de Oliveira - Como o Estado tem que se legitimar, faz políticas excepcionais para cada caso excepcional. Para alguém que anda de muletas, você tem que dar muletas. A desigualdade cria suas políticas e toda política universal, democrática e republicana vai pelo ralo. Tem que fazer assim, se não, as pessoas morrem. Morrem mesmo, não é retórica. A pobreza se mantém, o que pode dar lugar a um vastíssimo clientelismo. Como perdeu contato com a realidade e foi colonizada pela economia, a política não decide nada sobre as questões mais importantes, e vai decidir sobre a distribuição da miséria. Daí a política vira um bando de gangues que disputa ferozmente para ver quem assume o controle. É o que o PT vai ser. O PT vai ser um peronismo, todo dividido em gangues. BF - O que acha da proposta de zerar o déficit nominal e baixar os juros? Chico de Oliveira - Chamaram o Delfim Netto para isso. E sua sugestão vai dar certo. O Brasil não está condenado a não crescer. Não é essa a questão. É difícil não crescer. Você só garroteia o crescimento com uma política miserável, mas se baixar a taxa de juros, a economia volta a crescer adoidado. BF - O que não significa melhorias da vida do povo? Chico de Oliveira - Não, porque com um Estado que faz política focalizada, não haverá redistribuição de renda. O que está acontecendo é arrocho no gasto social. E vão chamar o Delfim Netto para isso. Ele não precisa de cargos. Ele já manda. Você conceberia que o Lula fosse assessorado diretamente pelo Delfim Netto? Era inconcebível. BF - Em resumo, o Lula podia ter feito diferente? Por que não fez? Chico de Oliveira - Em vez dele, como corredor de Fórmula 1, aproveitar o vácuo, ele breca. O Lula é um produto da crise provocada por Fernando Henrique. E podia ter feito diferente. E não fez. A personalidade de Lula influenciou muito, porque ele se tornou a liderança carismática do PT e do povão. E ele é fraco de caráter. É só ver o documentário Entreatos, do João Moreira Salles. Não tem nada de radical ali. Foi a gente que se enganou. Quem é O sociólogo Chico de Oliveira é professor titular aposentado de Sociologia do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, e coordenador-executivo do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania-Cenedic-USP. Nascido em Recife (PE), Chico de Oliveira ganhou notoriedade no governo Jango, quando era o braço direito do economista Celso Furtado na Sudene. A partir de 1970, se integra ao Cebrap, que reunia intelectuais de oposição ao regime militar. Um dos fundadores do PT, entre 1990 e 1992, foi o titular da pasta Desenvolvimento Regional no governo paralelo coordenado por Lula. É autor de Crítica da Razão Dualista, A Economia da Dependência Imperfeita, A Falsificação da Ira, Elegia para uma Re(li)gião e O Elo Perdido. link da entrevista
CNPq divulga Censo 2004 do Diretório dos Grupos de Pesquisa
# Neste censo foram inventariados 19.470 grupos, localizados em 335 instituições, totalizando 77.649 pesquisadores
Estão disponíveis no site do CNPq os resultados do censo 2004 do Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil. Neste censo foram inventariados 19.470 grupos, localizados em 335 instituições, totalizando 77.649 pesquisadores, dos quais 47.973 doutores (equivalentes a 62% dos pesquisadores) e aproximadamente 103 mil estudantes de graduação e pós-graduação. Além dos recursos humanos constituintes dos grupos, as informações levantadas dizem respeito às linhas de pesquisa em andamento, às especialidades do conhecimento, aos setores de aplicação envolvidos, à produção científica e tecnológica e aos padrões de interação com o setor produtivo. Projeto desenvolvido no CNPq desde 1992, o Diretório já realizou até hoje seis levantamentos, numa freqüência quase sempre bienal (1993, 1995, 1997, 2000, 2002 e 2004). As informações contidas em suas bases de dados são capazes de descrever, sobretudo a partir de 2000, os limites e o perfil geral da atividade científico-tecnológica no Brasil e fornecem aos interessados uma grande massa de informação, bastante diversificada, sobre detalhes de quem realiza as atividades, como e onde as realiza e sobre o quê pesquisam. Além dos inventários bianuais, desde 2002 o Diretório permite também atualizações contínuas da base de dados e mantém, permanentemente, um site para buscas textuais sobre essa base corrente. O novo site de resultados do Diretório permite consultas, em um único portal, aos três últimos Censos (2000, 2002 e 2004), a partir de seus módulos de Súmula estatística, Plano tabular, Busca textual e Estratificação. No módulo de Séries históricas, o leitor encontrará tabelas selecionadas, com informações que sintetizam a evolução temporal e agregada do perfil dos grupos de pesquisa, de 1993 a 2004. Em breve, o Plano tabular oferecerá ainda a possibilidade de consultas de informações quantitativas sobre a base corrente (atual) do Diretório. O módulo de Estratificação relativo ao censo de 2004 ainda não está disponível e, tão logo seja concluído, também será incorporado ao site. Veja o censo em: dgp.cnpq.br/censo2004/ Assessoria de Imprensa do CNPq
Um espectro ronda a BBC
# É o título da matéria do "The Economist", que convida seus leitores a tentar frear a ascensão de Marx votando pelo terceiro da lista, o escocês David Hume, um dos maiores representantes do empirismo britânico, na pesquisa da BBC para conhecer os "filósofos favoritos".
Marx encontra-se em primeiro lugar, seguido por Ludwig Wittgenstein. Vote aqui No Terra a matéria completa Nota: a ideologia, sempre presente, faz com que a notícia saia no setor "divirta-se" do Estadao. >> link
os blogs e os movimentos sociais
# No meu entender os blogs foram feitos para os movimentos sociais. Educação, comunicação, jornalismo, literatura, COMO movimento social.
Estou lendo e adorando Dias de Dissenso. Alguém da Dissent blogando direto de Edimburgo e das menifestações e eventos que estão ocorrendo em torno da reunião do G8. (dica da Tati >> Alfarrábio) |
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