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O tempo do pesquisador, artigo de Ruy José Válka Alves
# Temos computadores, scanners, máquinas digitais, Internet, e-mail, GPS e telefone celular. Por quê nossa produção nem chega perto da dos antigos naturalistas?
Ruy José Válka Alves, Vice-Diretor do Museu Nacional, UFRJ, (ruyvalka@mn.ufrj.br). Artigo enviado pelo autor ao ‘JC e-mail’: Quando o Brasil assinou a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), assumindo, dentre outros, o compromisso de intensificar os estudos de nossa biodiversidade, não se deu conta de que não estamos mais no século XIX. O tempo se transformou na essência mais rara e preciosa do pesquisador. À luz de velas e escrevendo com tinta nanquim, muitos naturalistas realizaram importantes coletas e publicaram preciosos estudos em meados do século XIX. Em 1859, Darwin publicava a sua Origem das Espécies. Ao viajar pelo Brasil entre 1817 e 1820, a comitiva de 65 especialistas liderada pelo naturalista alemão Carolus F. P. von Martius coletou e registrou uma parte significativa da flora brasileira. O fruto de 38 anos de trabalho foi a monumental Flora brasiliensis, em cujos 46 volumes foram descritas 22.767 espécies de plantas, com 3.811 imagens. Os espécimes dessas viagens estão bem preservados em instituições da Europa. Além do interesse pela natureza, esses pesquisadores tinham em comum o tempo necessário para se concentrar no trabalho. A contrapartida que ofereciam pelo apoio financeiro de reis e outros governantes eram as coleções catalogadas e as publicações definitivas de alta qualidade. Era considerado natural que bons levantamentos de flora e fauna fossem trabalhosos e que seus resultados demorassem a sair. Muitas viagens de coletores e muitas monografias só se tornaram possíveis graças ao interesse pelas ciências e apoio pessoal de alguns indivíduos esclarecidos da nobreza reinante. Ao ajudar o homem no trabalho, a tecnologia lhe proporcionaria mais tempo livre... Essa promessa nunca se concretizou! Se os especialistas demoravam meses para trocar informações por cartas, como puderam produzir tantos e tão bons trabalhos? Fala-se de uma nova iniciativa, a Flora Brasiliensis do século XXI, iniciativa certamente louvável, mas impossível na atual conjuntura legal e econômica do país. Imaginem o Martius elaborando um projeto de pesquisa nos moldes de um órgão de fomento, preenchendo dezenas de formulários para obter licenças de coleta de material do Ibama (on-line), IEF (off-line), Prefeituras etc., autorizações de acesso às reservas da Funai (se comprometendo a não publicar os dados), assinando um Termo de Transferência de Material referente ao Patrimônio Genético (TTM), pedindo licença ao CGEN para empréstimo de material a instituição no estrangeiro, pedindo portaria de excursão, pedindo autorização para afastamento do país, pedindo auxílio-combustível, enviando relatórios trimestrais de pesquisa, fazendo prestação de contas, dando aulas, orientando teses e dissertações, preenchendo os currículos Lattes e Sigma, escrevendo os relatórios anuais da instituição, buscando patrocínio para publicação, publicando dois papers completos por ano (em revistas indexadas), realizando excursões de coleta, participando de reuniões administrativas, prestando consultorias ad-hoc, matando insetos que comem as coleções, desembaraçando um pacote de exsicatas (devolução de patrimônio) apreendido na alfândega por um fiscal da Delegacia de Agricultura, emendando goteiras no telhado do herbário e, quando possível, nos fins de semana, convivendo com a família. Nesses termos o Thomas Edison ainda estaria tentando acender uma vela por fricção de dois gravetos... * publicado no Jornal da Ciência
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