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O novo século americano
# A Casa Branca é hoje dominada por neoconservadores e fundamentalistas cristãos, para quem a oportunidade criada pelo 11 de Setembro para pôr em prática suas reformas radicais não pôde ser inteiramente aproveitada no primeiro mandato de Bush. Nada melhor do que uma segunda chance. A um observador estrangeiro pode causar surpresa que tenha sido tão intensa a disputa eleitoral nos EUA, com recurso a táticas ilegais para condicionar o resultado de uma eleição onde, segundo critérios políticos europeus, um candidato se posiciona na centro-direita (Kerry) e o outro na extrema-direita (Bush). E mais surpresa causará o fato de a guerra no Iraque, apesar do seu trágico fracasso, ter sido o ponto mais forte da campanha de Bush. Os fatos que causam surpresa escondem os fatos que podem desvanecê-la. Ao contrário do que se pode pensar, no domínio da política interna muito esteve em causa nestas eleições. A política da Casa Branca é hoje dominada por uma aliança entre neoconservadores e fundamentalistas cristãos, para quem a oportunidade que lhes foi criada pelo 11 de Setembro para pôr em prática as suas reformas mais radicais não pôde ser inteiramente aproveitada durante o primeiro mandato de Bush. É, pois, crucial um segundo mandato para mudar verdadeiramente os EUA e tornar a mudança irreversível. São três os pilares em que assentam essas reformas: o excepcionalismo imperial; a desigualdade e o mercado como motores do progresso; os ”valores morais” como legislação de Deus. A guerra do Iraque foi pensada como primeira fase de uma estratégia de domínio total da área, que inclui a invasão do Irã e a colonização das ex-Repúblicas Soviéticas da Ásia Central. O domínio não assenta só no objetivo de controlar o petróleo, mas não faria sentido sem ele. Se estes planos não puderem ser inteiramente cumpridos, há um eixo do mal alternativo a destruir: Cuba, a Venezuela e, se não se portarem bem, o Brasil e a Argentina (e certamente, desde há quinze dias, o Uruguai). Em coerência com esta concepção imperial do poder, os fins justificam os meios, que podem ser a guerra ou o unilateralismo extremo no plano externo, e a fraude eleitoral ou a redução das liberdades democráticas, no plano interno. Ao contrário do que pretendiam os conservadores tradicionais — muitos dos quais apelaram ao voto em Kerry — o Estado pode crescer e o déficit orçamental aumentar, desde que tal seja necessário para cumprir o desígnio imperial. Como os recursos não são ilimitados e as despesas militares têm total prioridade, as despesas sociais devem ser reduzidas ao mínimo. Esta redução, sendo necessária por razões pragmáticas, é justificada por questões de princípio: o Estado não pode retirar aos indivíduos a responsabilidade pelo seu bem-estar; esta exercita-se antes de tudo no mercado; a vitalidade do mercado assenta na substituição da regulação pela adesão voluntária a códigos de conduta e na redução de impostos. Os grandes interesses econômicos não precisam de subscrever integralmente este delírio imperialista e reacionário para poder beneficiar dele. O importante é não desperdiçar as insuspeitadas possibilidades de negócio que ele abre. Para a indústria militar, uma guerra potencialmente infinita significa que a luta pelo orçamento está ganha. Para a indústria farmacêutica, é crucial impedir o controlo do preço dos medicamentos e a sua importação. Para as companhias de seguros, é fundamental que os prêmios de seguro possam continuar a subir a taxas cinco vezes mais elevadas que o salário, mesmo que com isso 45 milhões de cidadãos fiquem sem seguro médico. Para a indústria energética, esta é a oportunidade para ter lucros fabulosos com a subida do petróleo e, ao mesmo tempo, explorar o petróleo do Alaska, impedir o recurso às energias renováveis e eliminar o que ainda resta da proteção ambiental. Para a indústria educacional, a expansão do negócio está garantida se o sistema público de educação continuar a degradar-se e as propinas no ensino superior público continuarem a subir ao ritmo em que subiram nos últimos quatro anos (35%). Para o capital financeiro, é urgente o balão de oxigênio da privatização da segurança social e, em especial, do sistema de pensões. Esta é uma agenda ambiciosa, mas para os neoconservadores e fundamentalistas ela só fica completa quando se lhe junta a agenda religioso-ideológica, a os “valores morais”: proibir o aborto, o planejamento familiar e os casamentos entre homossexuais; limitar estritamente a investigação com células estaminais e a investigação da cura do HIV/Aids; reduzir a educação sexual à promoção da abstinência, como, de resto, já está a suceder no Texas. Quais são as implicações da vitória de Bush? 1) Cidadãos com medo são facilmente manipuláveis. Nestas eleições, os americanos deixaram-se convencer por Bush de que o verdadeiro chefe é aquele que, em vez de reconhecer um erro, o repete tantas vezes quantas as necessárias para o transformar num ato de coragem. A máquina de propaganda montada para inculcar esta idéia foi impressionante, mas ela só foi eficaz porque culminou um processo de desinformação sobre a guerra no Iraque que faz dos norte-americanos um dos povos mais mal informados do mundo. 2) Está em curso uma guerra civil nos EUA. De um lado, a América secular, moderada, que confia na ciência e na argumentação racional, tendencialmente isolacionista por temer os excessos do imperialismo, solidária para com os pobres, tanto no país como no mundo, olhando com alguma inveja para o modelo social europeu. Acredita em valores e inclui, entre eles, a paz, a solidariedade para com o próximo, mesmo que não pense com nós, ou a justiça fiscal. Do outro, a América religiosa ultraconservadora, para quem a Bíblia é fonte de verdade e os governantes, uma vez iluminados por Deus, são detentores de uma política revelada que deve ser seguida e não discutida. Todos os interesses terrenos devem ser subordinados à salvaguarda dos valores “legítimos”: a família assente no casamento heterossexual, e a proibição do aborto. Estas duas Américas não se comunicam. Bush levou a divisão ao extremo e não concebe a união da América senão como rendição total da América “errada”. 3) Foi redescoberto o potencial da religião como ópio do povo, como mecanismo eficaz para levar as classes populares a votar contra os seus interesses (emprego, salário decente, educação e saúde baratas). A manipulação do voto pelo dinheiro não chega – e a prova é que os democratas nunca gastaram tanto dinheiro como nesta campanha – , é preciso juntar ao dinheiro a religião “verdadeira”. 4) Segundo os ideólogos da Casa Branca, devemos preparar-nos para um choque apocalíptico entre a Cristandade e o Islã. Isto significa que, como aconteceu antes na história, os inimigos acabam por parecer-se muito entre si. * Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal) fonte: artigo publicado na Agência Carta Maior
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