Do Jornal da Ciência ...

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:: Habeas Data no financiamento à pesquisa, artigo de Rafael Linden
O acesso à opinião dos especialistas consultados na análise ad hoc, bem como a conclusão do comitê, são relevantes tanto para os autores de projetos aprovados quanto para os recusados ... segue no Jornal da Ciência

:: Divulgados resultados de três editais e duas listas complementares
Estão disponíveis na página do CNPq os resultados dos editais número 08 (Formação de recursos humanos em biotecnologia), 09 (Geração de produtos, processos e serviços em biotecnologia), e 40 (Sensibilidade ambiental ao derramamento de óleo)
Também foram divulgadas listas complementares aos resultados dos editais 24 (Produção de conhecimento sobre violência, acidente e trauma) e 30 (Produção de conhecimento sobre alimentação e nutrição). ... segue no Jornal da Ciência

:: Algumas das grandes questões, artigo de Marcelo Gleiser
Computadores hoje são extremamente velozes, mas apenas isso; sua atividade é limitada a obedecer comandos. Se não compreendermos o funcionamento do cérebro, ficará difícil construirmos máquinas inteligentes. ... segue no Jornal da Ciência

O novo século americano

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A Casa Branca é hoje dominada por neoconservadores e fundamentalistas cristãos, para quem a oportunidade criada pelo 11 de Setembro para pôr em prática suas reformas radicais não pôde ser inteiramente aproveitada no primeiro mandato de Bush. Nada melhor do que uma segunda chance.

A um observador estrangeiro pode causar surpresa que tenha sido tão intensa a disputa eleitoral nos EUA, com recurso a táticas ilegais para condicionar o resultado de uma eleição onde, segundo critérios políticos europeus, um candidato se posiciona na centro-direita (Kerry) e o outro na extrema-direita (Bush). E mais surpresa causará o fato de a guerra no Iraque, apesar do seu trágico fracasso, ter sido o ponto mais forte da campanha de Bush. Os fatos que causam surpresa escondem os fatos que podem desvanecê-la. Ao contrário do que se pode pensar, no domínio da política interna muito esteve em causa nestas eleições. A política da Casa Branca é hoje dominada por uma aliança entre neoconservadores e fundamentalistas cristãos, para quem a oportunidade que lhes foi criada pelo 11 de Setembro para pôr em prática as suas reformas mais radicais não pôde ser inteiramente aproveitada durante o primeiro mandato de Bush. É, pois, crucial um segundo mandato para mudar verdadeiramente os EUA e tornar a mudança irreversível. São três os pilares em que assentam essas reformas: o excepcionalismo imperial; a desigualdade e o mercado como motores do progresso; os ”valores morais” como legislação de Deus.
A guerra do Iraque foi pensada como primeira fase de uma estratégia de domínio total da área, que inclui a invasão do Irã e a colonização das ex-Repúblicas Soviéticas da Ásia Central. O domínio não assenta só no objetivo de controlar o petróleo, mas não faria sentido sem ele. Se estes planos não puderem ser inteiramente cumpridos, há um eixo do mal alternativo a destruir: Cuba, a Venezuela e, se não se portarem bem, o Brasil e a Argentina (e certamente, desde há quinze dias, o Uruguai).

Em coerência com esta concepção imperial do poder, os fins justificam os meios, que podem ser a guerra ou o unilateralismo extremo no plano externo, e a fraude eleitoral ou a redução das liberdades democráticas, no plano interno. Ao contrário do que pretendiam os conservadores tradicionais — muitos dos quais apelaram ao voto em Kerry — o Estado pode crescer e o déficit orçamental aumentar, desde que tal seja necessário para cumprir o desígnio imperial. Como os recursos não são ilimitados e as despesas militares têm total prioridade, as despesas sociais devem ser reduzidas ao mínimo. Esta redução, sendo necessária por razões pragmáticas, é justificada por questões de princípio: o Estado não pode retirar aos indivíduos a responsabilidade pelo seu bem-estar; esta exercita-se antes de tudo no mercado; a vitalidade do mercado assenta na substituição da regulação pela adesão voluntária a códigos de conduta e na redução de impostos.

Os grandes interesses econômicos não precisam de subscrever integralmente este delírio imperialista e reacionário para poder beneficiar dele. O importante é não desperdiçar as insuspeitadas possibilidades de negócio que ele abre. Para a indústria militar, uma guerra potencialmente infinita significa que a luta pelo orçamento está ganha. Para a indústria farmacêutica, é crucial impedir o controlo do preço dos medicamentos e a sua importação. Para as companhias de seguros, é fundamental que os prêmios de seguro possam continuar a subir a taxas cinco vezes mais elevadas que o salário, mesmo que com isso 45 milhões de cidadãos fiquem sem seguro médico. Para a indústria energética, esta é a oportunidade para ter lucros fabulosos com a subida do petróleo e, ao mesmo tempo, explorar o petróleo do Alaska, impedir o recurso às energias renováveis e eliminar o que ainda resta da proteção ambiental.

Para a indústria educacional, a expansão do negócio está garantida se o sistema público de educação continuar a degradar-se e as propinas no ensino superior público continuarem a subir ao ritmo em que subiram nos últimos quatro anos (35%). Para o capital financeiro, é urgente o balão de oxigênio da privatização da segurança social e, em especial, do sistema de pensões. Esta é uma agenda ambiciosa, mas para os neoconservadores e fundamentalistas ela só fica completa quando se lhe junta a agenda religioso-ideológica, a os “valores morais”: proibir o aborto, o planejamento familiar e os casamentos entre homossexuais; limitar estritamente a investigação com células estaminais e a investigação da cura do HIV/Aids; reduzir a educação sexual à promoção da abstinência, como, de resto, já está a suceder no Texas.

Quais são as implicações da vitória de Bush?

1) Cidadãos com medo são facilmente manipuláveis. Nestas eleições, os americanos deixaram-se convencer por Bush de que o verdadeiro chefe é aquele que, em vez de reconhecer um erro, o repete tantas vezes quantas as necessárias para o transformar num ato de coragem. A máquina de propaganda montada para inculcar esta idéia foi impressionante, mas ela só foi eficaz porque culminou um processo de desinformação sobre a guerra no Iraque que faz dos norte-americanos um dos povos mais mal informados do mundo.

2) Está em curso uma guerra civil nos EUA. De um lado, a América secular, moderada, que confia na ciência e na argumentação racional, tendencialmente isolacionista por temer os excessos do imperialismo, solidária para com os pobres, tanto no país como no mundo, olhando com alguma inveja para o modelo social europeu. Acredita em valores e inclui, entre eles, a paz, a solidariedade para com o próximo, mesmo que não pense com nós, ou a justiça fiscal. Do outro, a América religiosa ultraconservadora, para quem a Bíblia é fonte de verdade e os governantes, uma vez iluminados por Deus, são detentores de uma política revelada que deve ser seguida e não discutida. Todos os interesses terrenos devem ser subordinados à salvaguarda dos valores “legítimos”: a família assente no casamento heterossexual, e a proibição do aborto. Estas duas Américas não se comunicam. Bush levou a divisão ao extremo e não concebe a união da América senão como rendição total da América “errada”.

3) Foi redescoberto o potencial da religião como ópio do povo, como mecanismo eficaz para levar as classes populares a votar contra os seus interesses (emprego, salário decente, educação e saúde baratas). A manipulação do voto pelo dinheiro não chega – e a prova é que os democratas nunca gastaram tanto dinheiro como nesta campanha – , é preciso juntar ao dinheiro a religião “verdadeira”.

4) Segundo os ideólogos da Casa Branca, devemos preparar-nos para um choque apocalíptico entre a Cristandade e o Islã. Isto significa que, como aconteceu antes na história, os inimigos acabam por parecer-se muito entre si.

* Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal)

fonte: artigo publicado na Agência Carta Maior

O novo século americano

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A Casa Branca é hoje dominada por neoconservadores e fundamentalistas cristãos, para quem a oportunidade criada pelo 11 de Setembro para pôr em prática suas reformas radicais não pôde ser inteiramente aproveitada no primeiro mandato de Bush. Nada melhor do que uma segunda chance.

A um observador estrangeiro pode causar surpresa que tenha sido tão intensa a disputa eleitoral nos EUA, com recurso a táticas ilegais para condicionar o resultado de uma eleição onde, segundo critérios políticos europeus, um candidato se posiciona na centro-direita (Kerry) e o outro na extrema-direita (Bush). E mais surpresa causará o fato de a guerra no Iraque, apesar do seu trágico fracasso, ter sido o ponto mais forte da campanha de Bush. Os fatos que causam surpresa escondem os fatos que podem desvanecê-la. Ao contrário do que se pode pensar, no domínio da política interna muito esteve em causa nestas eleições. A política da Casa Branca é hoje dominada por uma aliança entre neoconservadores e fundamentalistas cristãos, para quem a oportunidade que lhes foi criada pelo 11 de Setembro para pôr em prática as suas reformas mais radicais não pôde ser inteiramente aproveitada durante o primeiro mandato de Bush. É, pois, crucial um segundo mandato para mudar verdadeiramente os EUA e tornar a mudança irreversível. São três os pilares em que assentam essas reformas: o excepcionalismo imperial; a desigualdade e o mercado como motores do progresso; os ”valores morais” como legislação de Deus.
A guerra do Iraque foi pensada como primeira fase de uma estratégia de domínio total da área, que inclui a invasão do Irã e a colonização das ex-Repúblicas Soviéticas da Ásia Central. O domínio não assenta só no objetivo de controlar o petróleo, mas não faria sentido sem ele. Se estes planos não puderem ser inteiramente cumpridos, há um eixo do mal alternativo a destruir: Cuba, a Venezuela e, se não se portarem bem, o Brasil e a Argentina (e certamente, desde há quinze dias, o Uruguai).

Em coerência com esta concepção imperial do poder, os fins justificam os meios, que podem ser a guerra ou o unilateralismo extremo no plano externo, e a fraude eleitoral ou a redução das liberdades democráticas, no plano interno. Ao contrário do que pretendiam os conservadores tradicionais — muitos dos quais apelaram ao voto em Kerry — o Estado pode crescer e o déficit orçamental aumentar, desde que tal seja necessário para cumprir o desígnio imperial. Como os recursos não são ilimitados e as despesas militares têm total prioridade, as despesas sociais devem ser reduzidas ao mínimo. Esta redução, sendo necessária por razões pragmáticas, é justificada por questões de princípio: o Estado não pode retirar aos indivíduos a responsabilidade pelo seu bem-estar; esta exercita-se antes de tudo no mercado; a vitalidade do mercado assenta na substituição da regulação pela adesão voluntária a códigos de conduta e na redução de impostos.

Os grandes interesses econômicos não precisam de subscrever integralmente este delírio imperialista e reacionário para poder beneficiar dele. O importante é não desperdiçar as insuspeitadas possibilidades de negócio que ele abre. Para a indústria militar, uma guerra potencialmente infinita significa que a luta pelo orçamento está ganha. Para a indústria farmacêutica, é crucial impedir o controlo do preço dos medicamentos e a sua importação. Para as companhias de seguros, é fundamental que os prêmios de seguro possam continuar a subir a taxas cinco vezes mais elevadas que o salário, mesmo que com isso 45 milhões de cidadãos fiquem sem seguro médico. Para a indústria energética, esta é a oportunidade para ter lucros fabulosos com a subida do petróleo e, ao mesmo tempo, explorar o petróleo do Alaska, impedir o recurso às energias renováveis e eliminar o que ainda resta da proteção ambiental.

Para a indústria educacional, a expansão do negócio está garantida se o sistema público de educação continuar a degradar-se e as propinas no ensino superior público continuarem a subir ao ritmo em que subiram nos últimos quatro anos (35%). Para o capital financeiro, é urgente o balão de oxigênio da privatização da segurança social e, em especial, do sistema de pensões. Esta é uma agenda ambiciosa, mas para os neoconservadores e fundamentalistas ela só fica completa quando se lhe junta a agenda religioso-ideológica, a os “valores morais”: proibir o aborto, o planejamento familiar e os casamentos entre homossexuais; limitar estritamente a investigação com células estaminais e a investigação da cura do HIV/Aids; reduzir a educação sexual à promoção da abstinência, como, de resto, já está a suceder no Texas.

Quais são as implicações da vitória de Bush?

1) Cidadãos com medo são facilmente manipuláveis. Nestas eleições, os americanos deixaram-se convencer por Bush de que o verdadeiro chefe é aquele que, em vez de reconhecer um erro, o repete tantas vezes quantas as necessárias para o transformar num ato de coragem. A máquina de propaganda montada para inculcar esta idéia foi impressionante, mas ela só foi eficaz porque culminou um processo de desinformação sobre a guerra no Iraque que faz dos norte-americanos um dos povos mais mal informados do mundo.

2) Está em curso uma guerra civil nos EUA. De um lado, a América secular, moderada, que confia na ciência e na argumentação racional, tendencialmente isolacionista por temer os excessos do imperialismo, solidária para com os pobres, tanto no país como no mundo, olhando com alguma inveja para o modelo social europeu. Acredita em valores e inclui, entre eles, a paz, a solidariedade para com o próximo, mesmo que não pense com nós, ou a justiça fiscal. Do outro, a América religiosa ultraconservadora, para quem a Bíblia é fonte de verdade e os governantes, uma vez iluminados por Deus, são detentores de uma política revelada que deve ser seguida e não discutida. Todos os interesses terrenos devem ser subordinados à salvaguarda dos valores “legítimos”: a família assente no casamento heterossexual, e a proibição do aborto. Estas duas Américas não se comunicam. Bush levou a divisão ao extremo e não concebe a união da América senão como rendição total da América “errada”.

3) Foi redescoberto o potencial da religião como ópio do povo, como mecanismo eficaz para levar as classes populares a votar contra os seus interesses (emprego, salário decente, educação e saúde baratas). A manipulação do voto pelo dinheiro não chega – e a prova é que os democratas nunca gastaram tanto dinheiro como nesta campanha – , é preciso juntar ao dinheiro a religião “verdadeira”.

4) Segundo os ideólogos da Casa Branca, devemos preparar-nos para um choque apocalíptico entre a Cristandade e o Islã. Isto significa que, como aconteceu antes na história, os inimigos acabam por parecer-se muito entre si.

* Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal)

fonte: artigo publicado na Agência Carta Maior

texto de César Benjamin

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O governo Lula é prisioneiro de impasses profundos, dos quais não se libertará. Suas ações e omissões têm agravado, em curto período de tempo, todos os nossos dilemas. Caminha para um fracasso de grandes dimensões.

Há uma tragédia em curso no Brasil, e ela, por enquanto, nos confunde e nos paralisa. Pois a política o nosso instrumento da mudança foi despolitizada, reduzida a doses cavalares de marketing e a um conjunto de pequenos arranjos, muitos dos quais bastante suspeitos, tudo a serviço da conquista e da preservação de posições de poder. Nada mais há de libertário nela. Nenhum impulso de superação do que existe. Nenhuma ligação com fins e valores. Passada a eleição, discute-se agora se Marta ganhará a embaixada em Paris, quem se cacifou para a próxima disputa, qual dos gaúchos vai perder vaga no ministério, como encontrar cargos suficientes para acomodar tanta gente e coisas assim tão transcendentais, enquanto Lula diz platitudes, passeia com sua cadela, vai ao cineminha do palácio e aguarda a chegada do novo avião. Na economia, tudo vai bem, pois os bancos e o agronegócio vão bem. O povo tenta sobreviver.

Precisaremos reinventar a política. Os partidos operários modernizaram a política européia ainda no século XIX. Ampliaram os limites das hesitantes democracias de então, forçando os conservadores a se adaptar. No Brasil, em pleno século XXI, o PT no poder rebaixou os ideais republicanos já não digo socialistas ao nível de um jogo circense que instrumentaliza a nossa democracia, igualmente hesitante, para apequená-la. A política confirma-se como um espaço de competição entre grupos de profissionais que, ao buscarem seus interesses, concorrendo entre si, acabam por construir uma situação de eterno equilíbrio flutuante, por meio da manipulação periódica dos desejos de eleitores-consumidores. É, como se vê, uma variante do mercado. Não há mais projetos de sociedade em disputa. Não há espaços para que o povo apareça como protagonista e reivindique para si a construção de seu próprio futuro. Discute-se, no máximo, quem administra melhor o que aí está.

Nesse contexto, os políticos os do PT e os outros esforçam-se por adaptar-se ao que a sociedade é, ou parece ser, conforme lhes informam as onipresentes e minuciosas pesquisas de opinião. Não aceitam correr o risco de pensar no que ela não é, nem parece ser, mas pode vir a ser. São incapazes de despertar qualidades novas que estejam latentes. E ficam iguais. O futuro que resulta do somatório dessas ações da pequena política, dessas sucessivas operações de curto prazo, tendo sempre em vista a próxima eleição, esse futuro o único admitido pelo jogo institucional atual é apenas o prolongamento do presente. Não contém o caráter novo de um verdadeiro futuro. Consolida-se assim, pois agora sem oposição, o status quo que tem origem na contra-reforma conservadora da década de 1990. Os porta-vozes da burguesia exultam diantede tanta maturidade.

Tivemos, ao longo da história, muitos tipos de esquerda. Pela primeira vez, temos agora uma esquerda de negócios. Pois, tendo destruído a militância, o que Lula e o PT necessitam cada vez mais mídia e dinheiro sóa classe dominante pode lhes dar. Pela palavra de suas principais lideranças e pela sua prática, o PT já não esconde sua condição de partido tradicional, integrado política e moralmente àordem em vigor. Entre perdas e ganhos, firmou posições no espectro da política institucional, cada vez mais divorciada do país real, mas não mais poderá ser o eixo de gravitação de uma proposta transformadora, mesmo reformista, que pretenda ser séria.

Estamos assistindo, pois, ao fim de um ciclo na existência da esquerda brasileira, com o colapso político e moral de sua força hegemônica. Este ciclo acabou porque: (a) a interpretação que o PT tem sobre a crise do nosso país que seria superada com uma retomada do crescimento econômico está fundamentalmente errada;(b) o programa liberal e conservador do governo Lula, ao fortalecer as forças do capital contra as forças do trabalho, agrava a velha crise, em vez de abrir um período novo; (c) o tipo de prática que o PT propõe aos seus filiados integrar-se cada vez mais às instituições do Estado, construindo carreiras políticas individuais perpetua e aprofunda o impasse da esquerda; (d) a relação do PT com o povo desmobilizadora e mistificadora já permite classificá-lo como um partido conservador; (e) permeado por interesses menores de todo tipo, ele não é mais capaz de reformar-se e abandonar esse caminho falso.

Engana-se quem ainda espera que da cartola de Lula surja algo novo. O neoliberalismo do seu governo não é uma política. É uma ideologia. Como todas as outras, não deixa porta de saída. Só produz mais do mesmo, e esse mesmo épura mesmice. É preciso compreender bem esse ponto, para que não haja ilusões. No imaginário neoliberal, o mercado é o espaço de interação de incontáveis agentes, sem que nenhum deles possa, sozinho ou em grupo, controlar os processos de troca a ponto de impor os seus próprios fins aos demais. Ao governo, nessa visão, cabe cuidar apenas de preservar certas condições macroeconômicas que permitam o mercado operar. Fora do âmbito da empresa individual, essa escola de pensamento é hostil a qualquer idéia de metas, pois a busca de metas democraticamente definidas exige uma intervenção consciente nos processos econômicos e sociais, em nome de um futuro pensado, desejado, imaginado, concertado, e não produzido por aquela cega interação mercantil.

Quando se apresentam como representantes do futuro, os neoliberais nos vendem uma mercadoria que não podem entregar, pois eles mesmos não têm meios de saber a qual futuros se referem. A alocação dos recursos será ótima eles dizem se for produzida pelo livre mercado, simplesmente porque o livre mercado produz uma alocação qualquer, desconhecida, considerada ótima por critérios internos à própria teoria que o glorifica. Se essa alocação ótima produzirá bem-estar, não se sabe. Isso, aliás, não tem a menor importância.

Ora, se permanece indefinida a imagem do futuro que se deseja atingir, inexiste pontos de referência que permitam uma avaliação rigorosa dos processos reais. Diante de qualquer dificuldade, o pensamento neoliberal consegue acionar uma saída de emergência com a incessante repetição de que é preciso esperar mais e insistir mais, dobrando a aposta quando necessário, pois eis aí o verdadeiro problema o modelo ainda não foi completamente implantado. Há anos ouvimos isso, aqui e alhures, e não sem razões. Pois, sendo o livre mercado apenas um tipo ideal, incapaz de organizar efetivamente o conjunto da vida social, então, por definição, a implantação do modelo neoliberal está sempre incompleta. Cria-se um discurso que, como os demais discursos ideológicos, externaliza suas dificuldades. Não depende do confronto com uma realidade que lhe seja exterior, já que abriga em si condições suficientes para legitimar-se em qualquer circunstância. Os fracassos o fortalecem, pois ele sempre conta com uma poderosa fuga para a frente: Isso e aquilo estão atrapalhando o mercado. O argumento pode ser repetido ad infinitum, pois sempre haverá instituições e práticas, formais ou informais, que atrapalham o mercado. Como a vida das pessoas não pode ser reduzida a operações de compra e venda, qualquer sociedade organizada transcende muito o mercado, qualquer uma contém, e reproduz, e recria, inúmeras instâncias não mercantis. Elas sempre serão as culpadas.

As deficiências do projeto neoliberal conduzem seus defensores à inevitável conclusão de que é preciso aprofundar esse mesmo projeto. A incapacidade de realizar-se é, simultaneamente, uma fraqueza do modelo, no plano da realidade, e uma fonte de seu vigor, no plano de ideologia. Mantém-se em ação um moto-perpétuo típico dos pensamentos dogmáticos que não reconhecem nenhuma autoridade fora de si. É isso o que explica a agenda anunciada pelo governo Lula para o próximo ano, em retilínea continuidade com o que já foi feito: reforma das leis trabalhistas, autonomia legal para o Banco Central, negociações para a Alca... Falta tanta coisa a fazer sempre faltará! , atéque o mercado possa, enfim, nos redimir. Já se foram dois anos, de quatro, do mandato popular...

É o caminho sem volta que o governo Lula trilha alegremente, com uma radicalidade típica de cristão-novo, recém-convertido. Está brincando com fogo. Todos pressentem que a desigualdade social e a dependência externa vêm se tornando dramáticas, colocando em risco a nossa existência como sociedade organizada e nação soberana. Ninguém se iluda: apesar de tanta maturidade na política institucional, a sociedade brasileira estálonge de ter encontrado um equilíbrio estável. Essas multidões concentradas em grandes cidades, com acesso à informação e sem alternativas dentro do sistema atual são em tamanha escala um fenômeno novo em nossa história. É cedo para dizer como vão comportar-se quando perceberem que foram traídas de novo. Considerada em perspectiva histórica, a Revolução Brasileira amadureceu, embora as condições políticas para realizá-la não tenham sido construídas.

Quando o velho já morreu e o novo não nasceu, é tempo de muita incerteza. Como força transformadora, o PT já deixou de existir (a brava Luizianne é a exceção dessa regra). Nossa tarefa, agora e por muito tempo, érefundar a esquerda para refundar o Brasil. Antes que seja tarde demais.

* César Benjamin é autor de A opção brasileira (Contraponto, 1998, nona edição) e Bom combate (Contraponto, 2004). Integra o Movimento Consulta Popular.
Para a revista Reportagem 3 de novembro de 2004

Wbloggar 4.0

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Marcelo Cabral disponibiliza a mais recente versão do wbloggar. Nas suas palavras:

Como prometido, estou aqui para anunciar a nova Release Candidate do w.bloggar 4.00. Eu devo avisar-lhe que esta ainda é uma pre-release, portanto você poderá encontra alguns bugs e nem todas as funcionalidades planejadas para a versão final estão implementadas. Baixe o RC2 > aqui. Você não vai precisar desinstalar o w.bloggar 3.x, instale sobre a versão anterior, desta forma você vai poder manter todas as suas contas e configurações intactas.

Já instalei e estou testando! Obrigada, Marcelo!


Google Scholar

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Sistema de busca específico para artigos, textos acadêmicos, relatórios de pesquisa, ..., destinado a pesquisadores. Versão beta, sem adds.

Experimente >>> Google Scholar

novidades no argumento

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Depois de um tempo parado, recomeçam as publicações no Argumento com dois textos do colega Odalci José Pustai da FAMED e do PPGEDU da UFRGS. .... conferir

II Semana Nacional da Cultura e da Reforma Agrária do MST em Recife

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Gil lança Rede Cultural da Terra durante a II Semana Nacional da Cultura e da Reforma Agrária do MST em Recife. O projeto inclui 16 centros culturais em assentamentos de reforma agrária e capacitação de 200 arte-educadores para atuar no campo. Para MST, a cultura é arma contra as “cercas da mediocridade". (Verena Glass para a Agência Carta Maior)

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[América Latina: o que esperar de Bush e Kerry?]


Ao final das eleições nos EUA, o que espera a América Latina se vencer George W. Bush? E se o presidente eleito for John Kerry? Em entrevistas exclusivas à Agência Carta Maior, três dos maiores intelectuais de língua inglesa, Eric Hobsbawm, Immanuel Wallerstein e James Petras, e o brasileiro Luiz Gonzaga Belluzzo discutem livre-comércio, militarização e diplomacia em cada um desses cenários.

:: vale a pena conferir na Agência Carta maior

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