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[Triste ilusão das novas colônias]


Os trabalhos intelectuais migram do centro para a periferia. Mas no jogo da globalização, o que seria um benefício vira desvantagem: quem ganha são as transnacionais

Rafael Evangelista

Uma nova estrutura colonial pode estar se consolidando. O processo começou com a indústria manufatureira e teve seu ápice nos anos 1990, quando milhares de postos de trabalho foram transferidos dos países centrais para a periferia. Agora é a vez do setor de tecnologia e de finanças, os chamados “empregos de colarinho branco”. Aproveitando-se da existência de mão-de-obra qualificada em alguns países subdesenvolvidos, além da infra-estrutura de informática e comunicações, a descentralização das transnacionais atinge agora os setores de desenvolvimento e inteligência.

Poderia ser uma boa notícia para os países pobres, mas não é. O problema é que os trabalhadores destas nações ganham entre cinco a dez vezes menos que os dos países centrais. Um criador de software ganha em média, na Índia, 10 mil dólares por ano. Nos EUA, o salário para a mesma função é US$ 66 mil. A diferença vai direto para o bolso das grandes corporações.

Os países mais atingidos pelo aumento da oferta de emprego foram Índia, China e os países do Sudeste Asiático. Em todos eles, aumentou consideravelmente, durante a década de 90, o número de bacharéis, mestres e doutores formados anualmente. Só a Índia fornece ao mundo, anualmente, mais de meio milhão de engenheiros da computação. Receberão menos que um quinto do salário pago nos EUA.

Nos países desenvolvidos, a “nova” organização do trabalho provoca a criação de duas castas. Uma, dominante e pouco numerosa, é formada por aqueles que conseguiram ocupar os poucos postos de direção. Outra, gigantesca e empobrecida, é formada por trabalhadores mal remunerados (não necessariamente desqualificados), que ocupam os empregos de menor prestígio.

A nova face do colonialismo

“Nossas tecno-corporações são os poderes coloniais contemporâneos”, afirma Dion Dennis, autor do artigo The Digital Death Rattle of the American Middle Class: a cautionary tale (). Segundo ele, as transnacionais absorveram o modelo de dominação tradicional do colonialismo. Nele, as economias locais são moldadas primeiramente para servir ao centro colonial e suas formas de organização econômica e modos de produção.

De acordo com Dennis, a migração desses postos de trabalho só pode acontecer porque, embora as empresas tenham raízes históricas e culturais em seus lugares de origem, o comprometimento com valores sociais é mera peça de propaganda. A elas, não importa que a economia de seus países sofra com a perda de empregos. O único objetivo é aumentar as margens de lucro e a participação no mercado a curto prazo.

Nas novas colônias, um dos principais atrativos também é a falta de organização da força de trabalho. Ela é jovem, oriunda de uma crescente comunidade universitária, que se acostumou a exigir as mesmas garantias trabalhistas (aposentadoria, seguro saúde) dos empregados dos EUA, por exemplo. Por isso, embora receba salários comparativamente bem maiores, é contratada em condições muito mais flexíveis, semelhantes às dos trabalhadores das indústrias manufatureiras instaladas nos países subdesenvolvidos.

Da “educação salvadora” ao desemprego em massa

Mas não só o emprego é transferido para as colônias. Junto com ele, precisa ser incutida a ideologia neoliberal. Se a cultura, a história ou as fronteiras das colônias não servirem aos propósitos de alta lucratividade, elas serão substituídas por um obsessivo darwinismo social -- a idéia de que apenas os melhores e os mais competitivos sobreviverão. Dennis compara os postos de trabalho criados com o Cavalo de Tróia: “Parece inicialmente um bom presente, que traz muitos empregos, necessários para ocupar os talentos intelectuais”...

Uma das faces da ideologia neoliberal aplicada ao mundo do trabalho foi o mito da educação continuada, do aperfeiçoamento constante do trabalhador. Para se inserir no mercado, era preciso nunca parar de estudar. A culpa do desemprego foi transferida para o indivíduo, tanto nos países desenvolvidos como nos subdesenvolvidos. “A 'geração Y' foi compelida a ingressar em instituições públicas e privadas, para que se transformasse nos globalmente atraentes ‘trabalhadores do conhecimento’”, diz Dion Dennis.

No entanto, a recessão do início do século 21 desempregou todos, inclusive os “qualificados”. No fim do ano passado, mais da metade das 500 maiores empresas listadas pela revista Fortune já havia transferido um número significativo de postos de trabalho intelectual para outros países.

Bem comum ou “capital humano”?

A busca pelos melhores postos de trabalho tem causado um aumento excessivo da demanda por educação. Uma das idéias que vicejaram nos anos 90 e ainda persistem é a do “capital humano”. Ela postula que os indivíduos fazem um “gerenciamento de risco” de si mesmos, quando investem no desenvolvimento de suas habilidades genéticas. A educação deixa, então, de ser um bem comum, a ser oferecido a todos, e passa a ser um insumo (comercializável) relevante para o desenvolvimento profissional.

Quando se reduz a mero “investimento produtivo de risco”, o financiamento estatal para os estudantes deixa de ser oferecido de acordo com as necessidades econômicas de cada um. O critério mais relevante passa a ser o mérito acadêmico, em um esforço de “racionalização” dos gastos.

De acordo com Dennis, o efeito final dessa ideologia tem sido a crescente redução do financiamento público em educação no EUA. Na lógica neoliberal, não é mais economicamente viável investir em trabalhadores caros e para os quais os empregos já não existem mais em seu território.

Ao que parece, nem aos países periféricos interessam os empregos itinerantes. Com as fronteiras escancaradas, os trabalhadores qualificados destas nações são mal pagos, e qualquer iniciativa de industrialização local definha frente à feroz competição internacional.


:: artigo publicado em Planeta Porto Alegre
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