A Sociologia nas fronteiras do conhecimento

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O seminário “A sociologia nas fronteiras do conhecimento” será realizado de 29 de setembro a 22 de novembro, em São Paulo, com o tema central “Repensando as fronteiras da ciência, do trabalho e do desenvolvimento”.

Na ocasião serão discutidos, em cinco palestras, assuntos como revolução tecnológica, desigualdade social, transgênicos, política, trabalho, riqueza imaterial, propriedade intelectual e privatização do conhecimento.

O evento é promovido pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

Mais informações: www.fflch.usp.br/sdi/imprensa/eventos/fronteiras.html.

via Agência Fapesp.

Em carta a alunos, Chaui explica seu silêncio

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A filósofa Marilena Chaui, 63, endereçou a alunos da USP, onde leciona, uma carta na qual dá satisfações a respeito de seu comportamento diante do escândalo do "mensalão". Segundo Chaui, o "silêncio" que a ela se atribui é uma "construção" dos meios de comunicação, os quais ela critica, enumerando as razões que a fizeram encerrar sua "manifestação pública por meio da imprensa". Chaui diz que decidiu escrever a carta porque soube, por colegas, da "perplexidade" de alunos com sua atitude.

A carta data de 31 de agosto. É, portanto, anterior à participação da filósofa num debate sobre a "refundação do PT", realizado em São Paulo no último dia 12. Nele, Chaui afirmou que o partido foi o grande responsável pela construção da democracia no país e, por isso, seria vítima de "ódio" inédito da direita. Concluiu então com o grito de guerra "No pasarán!" --usado pelos comunistas espanhóis nos anos 30, contra a escalada fascista. A fala de Chaui, registrada pela Folha, dividiu opiniões dentro e fora do PT.

................continua

Apolonio de Carvalho

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Morre aos 92 anos o primeiro general do PT, Apolônio de Carvalho.

Figura legendária, a trajetória de vida do primeiro general do PT se confunde com o roteiro de um romance épico. Oficial do Exército brasileiro, engaja-se na luta democrática contra a ditadura getulista. Preso em 1935 como membro da Aliança Nacional Libertadora (ANL), vive, com centenas de outros presos políticos, o drama retratado por- Graciliano Ramos, em Memórias do Cárcere.

Libertado, filia-se ao PCB e segue para a Espanha juntamente com outros milhares de revolucionários internacionalistas de todas as partes do mundo para lutar contra as tropas nazifascistas de Franco, em defesa da República popular; como os personagens de Por Quem os Sinos Dobram, de Ernest Hemingway.

Derrotado na Espanha, Apolônio, o "Apolinário" de Jorge Amado em Subterrâneos da liberdade, asila-se na França, junta-se à Resistência e participa da guerrilha dos maquis, responsável por importantes e decisivas derrotas das tropas de ocupação alemãs.

[leia na Fundação Perseu Abramo este e outros textos]

Tem limite?

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LAYMERT GARCIA DOS SANTOS E FRANCISCO DE OLIVEIRA

Os paradoxos não param de proliferar: no poder, o Partido dos Trabalhadores paga mensalão para deputados da direita votarem leis neoliberais. O presidente reconhece que sua legenda tem caixa dois, mas não admite que alguém possa discutir ética com ele.
O PSDB pede apuração rigorosa das denúncias, mas não aceita que o esquema de Marcos Valério nasceu na era FHC. O governo segue à risca a ortodoxia capitalista, mas quer apoio dos operários, dos movimentos sociais e do povo em geral.
A elite brasileira prefere um operário a um empresário na Presidência. Lula acusa "as elites" de quererem desestabilizar o seu governo, enquanto o correspondente do "New York Times" escreve: "Se há uma conspiração no país, ela é comandada pela oposição e grandes empresários de São Paulo [e visa] manter Lula no poder, e não tirá-lo".
O maior paradoxo, porém, é o consenso de que a crise nada tem a ver com a economia, o que exige de todos um esforço "cívico" para circunscrevê-la à esfera jurídico-política e moral; de quebra, e como decorrência, impõe-se a idéia de que se trata de um desvio que precisaria ser sanado com uma "reforma política", e até mesmo com a desconstituição da Constituição! Quando na verdade a questão é o oposto: se a política hoje se reduz a uma cena grotesca -que tem como trama central a desqualificação da representação política, a desmoralização da esquerda no Brasil e, com ela, a liquidação da resistência ao neoliberalismo- é porque foi submetida aos ditames do mercado.
Não há "refundação" do PT, cassação "exemplar" de deputados ou "transparência" nos gastos de campanha que possam dar conta do recado. Em lugar do aparelhamento do Estado pelo PT, é o contrário que ocorre: o partido foi aparelhado pelo Estado, não passa de um braço deste para a realização de funções estatais. Entre as quais a primeira de todas: o controle da sociedade.

continua...

A ressaca do fordismo

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ROBERT KURZ

Durante muito tempo pareciam bem definidas as fronteiras entre a miséria em massa e as relativas condições de bem-estar coletivo. A linha demarcatória separava essencialmente o Norte do Sul do planeta. Essa constelação foi, no entanto, apenas um produto da história depois da Segunda Guerra.
Nos centros capitalistas, a mobilização das indústrias fordistas desencadeou um impulso sem precedentes de ocupação em massa e acumulação de capital, vinculados à ascensão dos sindicatos e da social-democracia. A "mobilização automotiva" da sociedade ia a par com a construção crescente de uma rede de seguridade social (o Estado de Bem-Estar Social), especialmente profunda na Alemanha Ocidental e, em parte, na França. Até mesmo no espaço do liberalismo econômico tradicional anglo-saxão, os governos trabalhistas no Reino Unido e a "grande sociedade" do presidente Lyndon Johnson, nos EUA, na tradição do "New Deal", geravam novas estruturas sociais.
O sociólogo alemão Ulrich Beck descreveu a ascensão social na era fordista do pós-guerra como "efeito elevador": apesar das permanentes diferenciações sociais, a sociedade como um todo era elevada a um patamar superior. Os salários reais se multiplicavam, enquanto as jornadas de trabalho, de modo inverso, declinavam constantemente. A expectativa geral de vida aumentava para todos por meio de um sistema médico melhorado.
Foi essa prosperidade sem precedentes do Norte que se tornou o paradigma extremamente atrativo do "desenvolvimento" para os países do Sul. Nisso se manifestou um paradoxo histórico, pois, enquanto no Sudeste Asiático e na África ainda eclodiam as últimas guerras de descolonização, e, simultaneamente, nos países já descolonizados, articulavam-se os movimentos contra a dependência econômica da Europa Ocidental e dos Estados Unidos, o paradigma do desenvolvimento dos centros capitalistas era ainda, contudo, o modelo a ser trilhado. Os ex-colonizados desejavam crescer nas formas sociais dos antigos senhores.
continua...

O capitalismo como religião

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Em texto preparado para conferência que fará no Brasil, o pensador marxista Michael Löwy segue Walter Benjamin e defende que o sistema social atual é um fenômeno essencialmente religioso

MICHAEL LÖWY

Entre os documentos inéditos de Walter Benjamin [1892-1940] publicados em 1985 por Ralph Tiedemann e Hermann Schweppenhäuser no volume 6 de "Gesammelte Schriften" (Suhrkamp Verlag), há um particularmente obscuro, mas que parece de uma atualidade surpreendente: "O capitalismo como religião". São três ou quatro páginas contendo anotações e referências bibliográficas; denso, paradoxal, às vezes hermético, o texto não se deixa decifrar facilmente. Como não se destinava à publicação, o autor não tinha qualquer necessidade de torná-lo legível e compreensível... Os comentários a seguir são uma tentativa parcial de interpretação, baseada mais em hipóteses do que em certezas, e deixando de lado certas "zonas de sombra".
O texto de Benjamin é, com toda evidência, inspirado por "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo" (Cia. das Letras, 2004), de Max Weber [1864-1920]. No entanto, como veremos, o argumento de Benjamin vai muito além de Weber e, sobretudo, substitui sua abordagem "axiologicamente neutra" (Wertfrei) por um fulminante requisitório anticapitalista.
"É preciso ver no capitalismo uma religião". Com essa afirmação categórica começa o fragmento. Segue-se uma referência, mas também um distanciamento em relação a Weber: "Demonstrar a estrutura religiosa do capitalismo -isto é, demonstrar que ele é não somente uma formação condicionada pela religião, como pensa Weber, mas um fenômeno essencialmente religioso- nos levaria ainda hoje pelos meandros de uma polêmica universal desmedida".
Benjamin continua: "Podemos entretanto, desde já, reconhecer no tempo presente três traços dessa estrutura religiosa do capitalismo". Benjamin não cita mais Weber, mas de fato os três pontos se alimentam de idéias e argumentos do sociólogo, dando-lhes um novo alcance, infinitamente mais crítico, mais radical -social e politicamente, mas também do ponto de vista filosófico (teológico?)- e perfeitamente antagônico à tese weberiana da secularização.
continua ...

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FUGA DE NOVA ORLEANS

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MAIS QUE A BRUTALIDADE DE UM FURACÃO E UMA SUPOSTA "NATUREZA HUMANA", O COLAPSO SOCIAL DA CIDADE REVELA A FORÇA "SUBLIME" DA DINÂMICA CAPITALISTA
SLAVOJ ZIZEK

Um dos heróis populares da Guerra do Iraque, que desfrutou de uma fama passageira e hoje se encontra esquecido, foi Muhammed Saeed al-Sahaf, o desafortunado ministro iraquiano da Informação que, nas entrevistas coletivas que concedia diariamente à imprensa internacional, heroicamente negava até mesmo os fatos mais evidentes, aderindo rigidamente à linha oficial iraquiana -mesmo quando os tanques norte-americanos estavam a poucas centenas de metros de seu escritório, ele continuou a afirmar que as imagens dos tanques dos EUA nas ruas de Bagdá veiculadas pela televisão não passavam de efeitos especiais criados em Hollywood.
De vez em quando, porém, ele afirmava uma verdade inesperada -por exemplo quando, confrontado com a alegação de que os norte-americanos estariam no controle de partes de Bagdá, retrucou: "Eles não estão em controle de nada. Eles não controlam nem mesmo a eles próprios!".
É como se, com o mergulho de Nova Orleans no caos, o velho ditado de Marx segundo o qual a tragédia se repete como comédia fosse invertido: o dito espirituoso de Saeed se converteu em tragédia. As autoridades norte-americanas, essa polícia universal que se esforça para controlar as ameaças à paz, liberdade e democracia em todo o mundo, perderam controle de parte da própria metrópole: durante alguns dias, a cidade regrediu, transformando-se em território selvagem em que se praticaram livremente os saques, assassinatos e estupros; ela se tornou a cidade dos moribundos e dos mortos, uma zona pós-apocalíptica na qual aqueles aos quais Giorgio Agamben chamou de "homini sacer" -os excluídos da ordem civil- andam livremente, à solta.

Não é hora de qualquer espécie de "schadenfreude", de sentimento de "bem-feito para os EUA, receberam o que mereciam"

Muita coisa pode ser dita sobre esse medo que permeia nossas vidas, o temor de que, por causa de algum acidente natural ou tecnológico (pane elétrica, terremoto...), toda teia social se desintegre -vale recordar o pavor despertado pelo chamado "bug do milênio", alguns anos atrás. Esse sentimento da fragilidade do laço social que nos une é em si mesmo um sintoma social: exatamente onde se esperaria uma manifestação de solidariedade social diante de um desastre, explode o egoísmo mais implacável e desumano.
Não é hora de qualquer espécie de "schadenfreude", de sentimento de "bem-feito para os EUA, receberam o que mereciam" -a tragédia é imensa, o que temos não é nenhuma inundação normal, já que Nova Orleans está situada abaixo do nível do mar, de modo que a água não irá sair sozinha. Mas é o momento certo para uma análise. Aconteceu alguma coisa que já vimos antes -onde mesmo?
As cenas que vimos nos noticiários de televisão nos últimos dias não podem deixar de nos trazer à mente uma série inteira de fenômenos da vida real, da mídia e culturais. A primeira associação que fazemos é evidentemente com relatos divulgados na televisão sobre localidades do Terceiro Mundo afundando no caos durante uma guerra civil (Cabul, Bagdá, Somália, Libéria).
E isso explica o que realmente espanta no eclipse de Nova Orleans: o que estávamos acostumados a ver acontecendo lá, agora aconteceu aqui (a ironia encerrada em tudo isso é que a Louisiana freqüentemente é descrita como "a república das bananas dos EUA", ou seja, a parte terceiro-mundista dos Estados Unidos). Essa é provavelmente uma das razões pelas quais a reação das autoridades se deu tarde demais: embora, racionalmente, se soubesse o que poderia acontecer, ninguém acreditava de fato nessa possibilidade. É como a ameaça da catástrofe ecológica: sabemos tudo sobre ela, mas, de algum modo, não acreditamos realmente que ela possa de fato acontecer.

A realidade
No entanto isso aconteceu mesmo nos EUA: em Hollywood, é claro, na série "Fuga de..." ("Fuga de Nova York" (1981), "Fuga de Los Angeles" (1996), ambos de John Carpenter), na qual uma megalópole norte-americana se vê isolada do domínio da ordem pública, e gangues criminosas assumem o controle da cidade. Mais interessante ainda, com relação a isso, é "O Efeito Dominó" (1996), de David Koepp, no qual, quando a energia elétrica deixa de funcionar numa cidade grande, a sociedade começa a desmoronar. O filme joga de maneira imaginativa com as relações raciais e com nossas atitudes preconceituosas com relação a estranhos.
Como diziam seus anúncios: "Quando nada funciona, tudo vale". E há ainda, no pano de fundo, a aura de Nova Orleans como cidade dos vampiros, do vodu e dos mortos-vivos, um lugar onde uma força espiritual sombria está sempre ameaçando explodir a teia social.
Assim, mais uma vez, como aconteceu no 11 de Setembro, a surpresa não foi apenas uma surpresa: o que aconteceu não foi que a torre de marfim fechada em si mesma da vida norte-americana foi rompida pela intrusão de uma realidade terceiro-mundista de caos social, violência e fome, mas sim, pelo contrário, que aquilo que até então era visto como algo que não faz parte de nossa realidade, algo do qual tínhamos consciência apenas como presença fictícia nas telas da televisão e do cinema, invadiu nossa realidade de maneira brutal.
Qual foi, então, a catástrofe que aconteceu em Nova Orleans? Quando a examinamos mais de perto, a primeira coisa que chama a atenção é sua estranha temporalidade, uma espécie de reação atrasada. Imediatamente após a chegada do furacão, houve um alívio momentâneo: o olho do furacão não atingiu Nova Orleans diretamente -passou a cerca de 40 quilômetros da cidade. Apenas dez pessoas foram dadas como mortas -então acreditou-se que o pior, a catástrofe temida, tinha sido evitado.
Então, nas horas seguintes à passagem do Katrina, as coisas começaram a dar errado realmente. Parte dos muros que protegem a cidade desabou, a cidade foi submersa, e a ordem social se desintegrou. Assim, a catástrofe natural (o furacão) revelou-se "socialmente mediada" de uma série de maneiras.
Para começar, existem bons motivos para suspeitar que os EUA vêm sendo alvos de mais furacões do que de costume em decorrência do aquecimento global provocado pelo homem. Em segundo lugar, o catastrófico efeito imediato do furacão (a cidade debaixo d'água) se deveu em grande medida ao erro humano: os diques protetores não foram bons o suficiente, e as autoridades não estavam preparadas para atender às necessidades humanitárias, que, no entanto, eram previsíveis.

Colapso social
O choque maior, porém, aconteceu depois, sob a forma do efeito social da catástrofe natural, a desintegração da ordem social -como se, numa espécie de reação atrasada, a catástrofe natural se repetisse sob a forma de catástrofe social. Como podemos interpretar esse colapso?
A primeira reação é a reação conservadora padronizada: os acontecimentos em Nova Orleans confirmam mais uma vez a fragilidade da ordem social e reforçam a necessidade de policiamento rígido e de pressão ética para prevenir a explosão de paixões violentas. A natureza humana é inerentemente má, o mergulho no caos social constitui uma ameaça permanente... Esse argumento também pode receber um viés racista: aqueles que descambaram na violência foram quase exclusivamente negros, logo, temos novas provas de que os negros não são realmente civilizados. As catástrofes naturais trazem à tona a ralé humana que é contida com dificuldade em tempos normais.
É claro que a resposta evidente a esse argumento é que o mergulho de Nova Orleans no caos apenas veio tornar visível a divisão racial persistente nos EUA: em Nova Orleans, 68% da população era negra; os negros eram os pobres e os marginalizados, que não possuíam meios de deixar a cidade a tempo e, por isso, foram deixados para trás, sem assistência e passando fome, de modo que não surpreende que tenham explodido. Suas explosões violentas podem ser vistas como ecos dos tumultos em Los Angeles decorrentes do incidente envolvendo Rodney King, ou mesmo dos distúrbios em Detroit e Newark no final dos anos 1960.
De maneira mais fundamental, o que dizer se a tensão que levou à explosão em Nova Orleans não foi a tensão entre a chamada "natureza humana" e a força da civilização que a conserva sob controle, mas a tensão entre os dois aspectos de nossa civilização, ela própria? E se, ao procurar controlar explosões como a de Nova Orleans, as forças da lei e da ordem se vissem diante da "natureza" do capitalismo em sua forma mais pura, a lógica da competição individual, da auto-afirmação impiedosa gerada pela dinâmica capitalista, uma "natureza" muito mais ameaçadora e violenta do que todos os furacões e terremotos?
Em sua teoria do sublime ("das Erhabene"), Immanuel Kant interpretou nosso fascínio com as manifestações explosivas do poder da natureza como prova negativa da superioridade do espírito sobre a natureza: por mais brutal que possa ser a manifestação da natureza feroz, ela não pode atingir a lei moral presente em nós. A catástrofe de Nova Orleans não oferece um exemplo semelhante do sublime? Por mais brutal que seja o vórtice do furacão, ele não é capaz de subverter o vórtice da dinâmica capitalista.

Slavoj Zizek é filósofo esloveno e autor de "Um Mapa da Ideologia" (Contraponto) e "O Mais Sublime dos Histéricos" (Jorge Zahar). Ele escreve regularmente no Mais!.
Tradução de Clara Allain
Publicado Pela Folha de São Paulo

Enquanto isso...

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EMIR SADER*


Enquanto a direita tenta voltar ao poder e setores da esquerda aceitam ser instrumentalizados por ela, seguiremos lutando para transformar o país no “outro Brasil possível” e indispensável, junto a todas as vítimas dessa imensa ditadura social, especulativa e midiática

Enquanto isso, morrem 10 pessoas por dia no Iraque, uma Constituição é aprovada e divide ainda mais o país.

Enquanto isso, a rejeição do presidente dos EUA chega a seu nível mais alto, não apenas pela condução da guerra no Iraque, mas também pela sua política interna.

Enquanto isso, o Brasil mantém a maior taxa de juros reais do mundo, mais do que o dobro do país que está em segundo lugar, continuando a transferir milhões de dólares diariamente do setor produtivo para o especulativo.

Enquanto isso, o Brasil continua a ser o país mais injusto do mundo – superado apenas por Serra Leoa, pequeno e pobre país africano, envolvido em guerra civil.

Enquanto isso, a violência segue devastando a Colômbia, envolta em um processo de guerra interno com a participação ativa de tropas dos EUA, provocando a maior catástrofe que esse país já viveu. E seu presidente se preocupa com a reeleição.

Enquanto isso, o prefeito de São Paulo aprova publicidade nos uniformes e o governador do Estado privatiza tudo o que vê pela frente – só não consegue privatizar a Febem –, revelando do que seriam capazes de fazer com o país, caso se tornassem presidentes da República.

Enquanto isso, FHC se candidata a ser o homem de confiança do governo Bush na América Latina, atacando o governo de Hugo Chávez, para agradar – como fez ao longo de todo o seu governo – os EUA (onde pretende ser embaixador).

Enquanto isso, a reforma agrária não avança, nem os financiamentos para os assentamentos, nem a desapropriação e instalação das centenas de milhares de famílias vivendo precariamente, que reivindicam simplesmente o direito de trabalhar em terras ociosas.

Enquanto isso, o Ministério da Fazenda continua a congelar os parcos recursos que o orçamento reserva para as políticas sociais.

Enquanto isso, a grande mídia privada – cada empresa pertencente a uma família da oligarquia brasileira – continua a exercer a ditadura da formação de opinião pública, com um vergonhoso sensacionalismo – em contraste com toda a corrupção que esconderam do governo FHC. Elevam Roberto Jefferson e Severino a seus novos heróis, apenas porque se opõem à esquerda.

Enquanto isso, os modelos neoliberais de livre-comércio e de livre circulação de capitais seguem devastando o mundo, provocando a maior miséria que a humanidade presenciou, com o silêncio cúmplice dos colunistas da grande imprensa, empenhados em contentar seus patrões.

Enquanto isso, setores da “esquerda que a direita gosta” seguem recebendo generosos espaços na mídia, porque se dispõem a atacar o governo Lula e o PT, sem nem sequer uma palavra de crítica à direita, aos bancos, ao imperialismo, ao capitalismo, à burguesia – que os acolhem, satisfeitos de instrumentalizá-los.

Enquanto isso, a direita acredita que vai voltar ao poder, para voltar a governar o país como tem feito ao longo dos séculos de história brasileira, produzindo todas as catástrofes que têm feito do Brasil a maior ditadura social do mundo e o que deveria ser exibido diariamente como a maior vergonha do país – caso tivéssemos uma mídia independente e crítica formando a opinião pública do país.

Enquanto isso – e sempre – seguiremos lutando que transformar o país no “outro Brasil possível” e absolutamente indispensável, junto a todas as vítimas dessa imensa ditadura social, especulativa e midiática.


*Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “A vingança da História".
1/9/2005 na Agência Carta Maior


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