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# [a revolução não será blogada] "para ver além de seu próprio pequeno mundo e perceber o que realmente está acontecendo, jornalistas e leitores vão ter de tirar os pijamas." By George Packer First, a confession: I hate blogs. I'm also addicted to them. Hours dissolve into nothing when I suit up and dematerialize into the political blogosphere, first visiting one of the larger, nearer online opinion diaries — talkingpointsmemo.com, andrewsullivan.com, kausfiles.com — then beaming myself outward along rays of pixelated light to dozens of satellites and lesser stars, Calpundit, InstaPundit, OxBlog, each one radiant with links to other galaxies — online newspapers and magazines with deep, deep archives, think-tank websites, hundred-page electronic reports in PDF — until I'm light-years from the point of departure and can rescue myself only by summoning the will to disconnect from the whole artificial universe. [leia no MotherJones.com] # [“Sim, a terra é produtiva. Mas, produtiva para quem, cara pálida?”.] A insustentável produtividade da celulose Maurício Thuswohl A verdadeira selvageria – utilizar extensões de terra para uma monocultura que agride o país ambientalmente, gera lucros para uma minoria e em nada contribui para combater a desigualdade social – ainda não foi percebida pela “elite pensante”. “Os inconformistas quase nunca tem razão nos precisos termos em que se manifestam. Mas, quase sempre tem razão na identificação do problema que os inconforma e no sentido geral da solução que eventualmente lhe será dada. Aos inconformistas só a história, nunca os contemporâneos, pode dar razão”. (Boaventura de Souza Santos) No calor do abril vermelho, nenhuma outra ação patrocinada pelas organizações do movimento sem terra provocou tanta indignação na “elite pensante” brasileira quanto as invasões das plantações de celulose de mega-empresas como a Klabin e a Veracel (leia-se Aracruz Celulose) em Santa Catarina e na Bahia. “Sem terra agora invadem terras produtivas”, apressarem-se a alardear, quase agradecidas pela munição que lhes era oferecida, as manchetes e chamadas dos principais jornais e telejornais brasileiros. Afinal de contas, não seria mesmo indefensável a ocupação de terras de empresas rentáveis, que empregam mão-de-obra nacional e pagam (quase sempre) em dia seus impostos? O senso comum – e disso se aproveitaram alguns respeitáveis colunistas de economia – parece dizer que sim. Entretanto, uma análise mais próxima impõe o seguinte questionamento: “Sim, a terra é produtiva. Mas, produtiva para quem, cara pálida?”. # [Criar e compartir] Inspirada pelo software livre e pela idéia do copyleft, a Creative Commons oferece alternativas para autores como Gilberto Gil, que vivem do trabalho intelectual mas não querem reduzi-lo à condição de mercadoria Rafael Evangelista # [Práticas e concepções de Educação Popular em Debate: relato de experiências] No dia 03/05, segunda-feira, das 18:00 h às 21:00 horas estaremos recebendo algumas pessoas que nos irão relatar suas experiências e concepções de Educação Popular. Práticas e concepções de Educação Popular em Debate: relato de experiências O Seminário será na sala 409 e contará com a presença do Prof. Dr. Nilton Fischer, da colega e Ms. Isabela Camini; da Doutoranda Débora Alves e da Prof. Lisânia, que desenvolve o projeto Terra Solidária, através da FETRAF/CUT Sul. A atividade é aberta e esperamos contar com a suas presenças. Um abraço a todos e todas. Marlene # [O modo lúmpen de estar no mundo] “Durante um certo tempo eu sentia que ainda fazia parte de um mundo em que as coisas eram simples e claras, mas essa impressão não durava muito” (Marlow, personagem da obra “O coração das trevas”, de Joseph Conrad.) Cristóvão Feil (*) Zygmunt Bauman exalta a capacidade da narrativa dos romancistas de iluminarem os meandros da experiência humana de estar no mundo. O grande sociólogo contemporâneo, nascido na Polônia, faz essa constatação para espicaçar a academia e o que ele considera a alienação de alguns profissionais de ciências sociais. Para Bauman, a literatura consegue alcançar os interstícios, as frinchas da realidade, onde a pesquisa sociológica jamais chegou. Para ele, os literatos são capazes de “reproduzir a não-determinação, a não-finalidade, a ambivalência obstinada e insidiosa da experiência humana e a ambigüidade de seu significado”. E para ilustrar cita Borges, Tolstói, Balzac, Dickens, Dostoiévski, Kafka, Thomas Morus. Mas poderia ter citado um conterrâneo seu, que, a exemplo dele, fez a sua vida profissional na Inglaterra e, portanto, em língua inglesa, que foi Joseph Conrad. Conrad é o autor de “O coração das trevas”, alegoria (uma seqüência de metáforas) sobre as conquistas coloniais do capitalismo concorrencial do século 19. Barra pesada. Se Marx, n’O Capital, já havia ido fundo nas denúncias ilustrativas das desumanidades do moderno sistema produtor de mercadorias nas suas fases de acumulação primitiva e concorrencial, Conrad agudiza sua literatura até o ponto do horror. O personagem narrador é Marlow, protagonista de uma aventura que penetra “nos sombrios domínios do inferno particular” de uma empresa privada, exploradora de marfim na África. Homens-bagaço sugados à exaustão. Canibais recrutados como mão-de-obra informal e que, impedidos da dieta alimentar correspondente a sua condição antropológica, dedicam-se a engolir carne podre de hipopótamo, e cujo salário se resume a três pedaços de arame por semana, preciosa moeda de troca naqueles “confins de ermas solidões”. Conrad cria nesse romance um personagem mítico chamado Kurtz (depois decalcado no filme de Coppola, Apocalypse Now [1979], completamente fora desse contexto), um sujeito internado no coração das trevas, uma ponta de lança do capitalismo, agente avançado da modernidade burguesa no seio da barbárie, cuja fortaleza-sede é decorada com cabeças humanas genuínas, para mostrar com quem estão falando. “Toda a Europa contribuíra para a confecção de Kurt” – escreve Conrad. Ele é a síntese mais acabada do etos da modernidade. A Sociedade Internacional para a Supressão dos Costumes Bárbaros (e só falta Conrad completar, debochadamente, “...e pró adoção de modernos barbarismos”) confiou a Kurtz o preparo de um relatório sobre a África. O relatório contém pérolas do tipo: “nós os brancos, considerando o progresso que já tínhamos alcançado, devemos forçosamente ser encarados por eles (os selvagens) como seres sobrenaturais”; “chegamos a eles investidos dos poderes de uma divindade”; para concluir com a aterradora sentença de morte – “Exterminemos todos os bárbaros!”. As semelhanças fundamentalistas com a presente conjuntura mundial não são mera coincidência. Bem antes de Michel Foucault, Conrad já denunciava, através de sua literatura, o discurso da “luta de raças” funcionar como princípio de eliminação, de segregação e, finalmente de normalização da sociedade (Foucault)... Veja, também, que Conrad aponta o uso astucioso do imaginário mágico-mítico das populações autóctones. Kurtz, o homem-síntese da Europa civilizada, da Europa duas vezes desencantada-desmagificada-racionalizada-intelectualizada (Max Weber), tanto pela ética religiosa judaico-cristã, quanto pelo espírito do racionalismo científico, não hesita em lançar mão de expedientes considerados primitivos, como a idolatria e o sobrenatural, com objetivos de submissão, conquista e normalização. Alguns comentadores (nem chegam a ser críticos) afirmam levianamente que Kurtz enlouquece na selva, que perde o juízo, tendo em vista a selvageria e a barbárie com as quais convive por anos a fio. Nada mais etnocêntrico. Como se a hipotética “loucura” viesse de fora, como se fosse inoculada pela relação promíscua com os selvagens. Considerar assim seria uma simplificação grosseira, além, de irrelevante. Como indivíduo, ele, de fato, fica sensivelmente abalado com o que provocou naquele lugar: “O horror! O horror!” Mas como agente social da modernidade burguesa, Kurtz tem as taxas de lucidez e as taxas de demência em doses flutuantes de equilíbrio e controle racionais para, tanto impor sua vontade de predador da Natureza (humana, animal e vegetal), quanto para – com método e determinação – traficar espíritos, força de trabalho semi-escrava e mercadorias com objetividade de propósitos sincronizados a uma rede de negócios comerciais na distante Europa. Onde está a loucura disso? Muito ao contrário, sente-se o tom permanente da acuidade, da expertise, da logística complexa e da organicidade sistêmica em todas essas ações gerenciais de predação da Natureza, nas suas várias formas de vida. É a “arte da guerra” a serviço da rapinagem comercial. E a rapinagem não é somente de elefantes e seus cobiçados marfins, ela corrompe por igual o ambiente inteiro, dissolvendo, sobretudo, o homem e a sua cultura. A cogitada “loucura” de Kurtz é como o procedimento do feiticeiro – lembrado por Marx, no Manifesto – que, incapaz de controlar os poderes ocultos desencadeados por seu feitiço, vê-se vítima de seus efeitos. Os danos causados, no limite, levam perigo ao próprio empreendimento colonial europeu, seus patrões. A “loucura” é – a rigor – um lento processo de lumpenização do personagem. Kurtz não enlouquece, transforma-se num lúmpen. Em alguém que se descola de sua classe e, incapaz de voltar ao seio de uma vida burguesa, torna-se um marginal imprudente que coloca em risco a mecânica do sistema. Simbolicamente, ele seria o lúmpen fundamental, o lúmpen essencial. Como um Fausto lúmpen pós-moderno, se envenena com as emanações maléficas de seus próprios feitos. Se o Fausto de Göethe era moderno, o Fausto lúmpen representa a pós-modernidade. Vive os limites fisiológicos do dia-a-dia. Como um cão que desconhece o seu futuro, o lúmpen pós-moderno só tem o presente. Vive tão-somente a unidimensional existência fisiológica, como qualquer animal. O trem do capitalismo já passou pela estação da modernidade e transita agora pela estação da pós-modernidade. Cada vez menos setores, classes e indivíduos cabem nesse sinistro trem da história. Abandonados pelo caminho, vão sobrando todos os rejeitos do moderno sistema produtor de mercadorias. O lúmpen é a escumalha que fica no rastro desse itinerário perverso. O grande personagem pós-moderno é o lúmpen, “o lixo de todas as classes”, “massa desintegrada” (Marx), desgovernada que é vomitada pelo sistema, todos os dias. Cresce como cogumelo na vida social contemporânea. Estamos em plena invasão lúmpen, fenômeno dinâmico que produz um etos, uma cultura e perfis sociológicos que lhes correspondem. Há punhados de exemplos. O mais recente no Brasil é o da proliferação dos bingos, jogo-lúmpen que servia de fachada para toda a sorte de atividade marginal e anti-social. Felizmente o governo federal teve a coragem de fazer cessar essas usinas de lumpesinato. Em que pese, o causador dessa proibição ter sido outro personagem lúmpen que assola a República, o do barbabé-quadrilheiro que trafica influências e recursos públicos para fins pessoais e privados. A crescente criminalização da vida social é uma derivação da dinâmica lúmpen. O crime passa a constituir-se em força produtiva e meio de vida para milhões de pessoas. Manifesta-se, no plano econômico, de múltiplas e criativas formas: “acordos e cartéis, abusos de posição de liderança, dumping e vendas casadas, delitos de iniciados e especulação, absorção e desmembramento de concorrentes, balanços falsos, manipulações contábeis e de preços de transferências, fraude e evasão fiscal por filiais off shore e sociedades virtuais, desvio de créditos públicos e mercados fraudados, corrupção e comissões ocultas, enriquecimento ilícito e abuso de bens sociais, vigilância e espionagem, chantagem e delação, violação do direito do trabalho e da liberdade sindical, da higiene e da segurança, das cotizações sociais e ambientais” (Brie). A vanguarda é o lúmpen. A lavagem de fundos ilícitos pelos principais bancos dos Estados Unidos constitui uma fonte importante de fluxos externos para aquele país. Uma subcomissão do Senado americano calculou essa cifra em torno de 500 bilhões de dólares/ano. São recursos de múltipla origem: desde o narcotráfico, máfia russa e japonesa até o caixa dois de companhias multinacionais, depósitos de paraísos fiscais “legalmente” tolerados. Tráfico de tudo: novos narcóticos sintéticos, cocaína, armamento pesado, órgãos humanos, alta prostituição, falsificação de grifes (muitas vezes pelos próprios proprietários, com o intuito de aproveitar o crescente mercado-lúmpen informal em todas as grandes cidades do mundo), pirataria na informática e na indústria fonográfica, o tráfico de animais (só este tráfico, movimenta anualmente cerca de 20 bilhões de dólares), etc. Toda a inteligência e logística estatal norte-americana do serviço secreto que era empregado na Guerra Fria onde opera, hoje? Ganha um doce quem disser que é na nova guerra econômica pela americanização de fundos legais e ilegais (fundos-lúmpen), tanto faz. A moeda é uma mercadoria vil que procura proteção máxima; e os EUA podem dispor de meios para garantir-lhe segurança e rentabilidade. O comércio mundial anual situa-se, hoje, “ao redor de 5 trilhões de dólares, calcula-se que 20% por via do crime, ou 1 trilhão de dólares” (Brie). Essa riqueza-lúmpen é administrada lisa e serenamente pelos grandes bancos do planeta, por grandes escritórios de advocacia, mega-corretores, intermediários diversos, gerentes e diretores de trustes e fiduciárias, constituindo um bolão-lúmpen que é lavado todos os dias, em quantidades parcelares, pela chamada economia legal. Essa mega lavanderia-lúmpen cobra pedágio em vidas humanas. A Rocinha é apenas um exemplo nacional que ilustra essa internacional-lúmpen da violência naturalizada. O crescimento mundial da dinâmica lúmpen é um indicativo evidente da enfermidade estrutural do sistema produtor de mercadorias. Os filhos de Kurtz proliferaram e querem ser vanguardas da anomia social. O modo lúmpen de estar no mundo é o último capítulo da saga Iluminista. A montanha liberal pariu ratos que roem a humanidade do homem. À esquerda acomodada, restam apenas podres poderes. (*) Cristóvão Feil é sociólogo e ensaísta. artigo da Agência Carta Maior, publicado em 27/04/2004 # [conferência] O Programa de Pós-Graduação tem o prazer de convidar a todos para a conferência que será proferida pelo Prof. Dr. Marcos Ferreira Santos* da Faculdade de Educação - USP, sobre o tema: "Mitohermenêutica & Educação: a cultura das culturas", na proxima quinta-feira, 22/04 às 10h30 junto à sala
601 desta Faculdade de Educação. * Formação Acadêmica § Livre-Docente em Cultura & Educação pela Faculdade de Educação - USP, 2004. § Pós-Doutoramento em Hermenêutica Simbólica, na Universidad de Deusto, Bilbao, Euskal Herria. Tese de pós-doutoramento: "Crepúsculo del Mito: Hermenéutica y Antropología de la Educación em Euskal Herría y Ameríndia", 2003. § Doutor em Filosofia da Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Tese de doutoramento: "Práticas Crepusculares: Mytho, Ciência e Educação no Instituto Butantan - um estudo de caso em Antropologia Filosófica", 2 vols., ilustr., 1998. Principal Atividade Acadêmica § Professor Associado (Livre-Docente) da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo - USP, Departamento de Administração Escolar e Economia da Educação (EDA) § Líder de grupo de pesquisa e coordenador do CICE - Centro de Estudos do Imaginário, Cultura e Educação, vinculado ao GRECO-CRI/CNRS/France e certificado pelo Diretório de Pesquisa 5.0 - CNPq sob n.o USP 0171. § Professor visitante de Hermenêutica Simbólica nas Universidad de Deusto, Bilbao (E.H.) e na Universidad Complutense de Madrid (Espanha). Resumo da conferância: Tecelão, ferreiro, sapateiro, peregrino, jardineiro. São imagens que carregam o sentido de educador que se quer mostrar ao leitor. Como diz Bachelard, uma imagem poética pode ser o germe de um mundo e, acrescentando-se, também de uma educação. A germinação remete ao imaginário noturno, vegetal e terrestre, que mobiliza a busca de sentido para a educação e para a existência humana. Daí se valer das imagens do ético jardim epicurista (képos) e da cultura das culturas ao pensar a educação para além de todos os escolacentrismos ocidentais-iluministas, contribuindo não só para a consolidação de uma mitohermenêutica como hermenêutica simbólica de cunho antropológico (como estilo filosófico e como método de investigação) na reflexão sobre a educação, na interpretação das obras da arte e das culturas, mas, principalmente, para evidenciar a presença de eros na educação. Trata-se de uma sinopse das conferências proferidas pelo autor em Euskadi (País Vasco, norte da Espanha) como professor visitante de Hermenêutica Simbólica nas Universidad de Deusto (Bilbao), Universidad del País Vasco (Euskal Herriko Unibertsitatea) e Zenbat Gara - Centro de Cultura y Lengua Euskara (Bilbao), em que predomina a defesa de uma educação de sensibilidade, das noções de mito e ancestralidade como alternativa de re-leitura da contemporaneidade e sua complexidade com as contribuições de um estilo mitohermenêutico que situa a compreensão de si mesmo como ponto de partida, meio e fim de toda jornada interpretativa. Bibliografia básica: FERREIRA SANTOS, Marcos (2004). Crepusculário: conferências sobre mitohermenêutica & educação em Euskadi. São Paulo: Editora Zouk. # [Última entrevista de OCTAVIO IANNI] Ação terrorista é "revolucionária" e o governo Lula é um desastre
Para Ianni, Lula frustra seu papel histórico CLÓVIS SAINT CLAIR FREE-LANCE PARA A FOLHA A entrevista que segue, cujos trechos a Folha publica com exclusividade, foi a última concedida pelo sociólogo Octavio Ianni antes de morrer, no domingo passado, aos 77 anos. Há cerca de três semanas, o professor emérito da USP e da Unicamp falou sobre globalização e seus efeitos nos países periféricos, seu foco de interesse nos últimos anos e tema de "Capitalismo, Violência e Terrorismo" (Editora Record, 2004), que chega às livrarias nos próximos dias. Na análise do sociólogo, os atentados de 11 de setembro, nos EUA, e de 11 de março, em Madri, são "ações revolucionárias", resposta à globalização que avança "a ferro e fogo" no mundo árabe. Ianni, integrante da geração da sociologia brasileira que redimensionou estudos sobre escravidão e desenvolvimento (como em "As Metamorfoses do Escravo", de 1962, e "Industrialização e Desenvolvimento Social no Brasil", de 1963), fez um diagnóstico duro do governo petista e da esquerda. "O governo Lula está demonstrando que não entendeu nada." Atacou a atuação do presidente como líder mundial -um "blefe"- e o discurso da esquerda -"anacrônico". Para ele, Lula frusta expectativas ao não "desempenhar o seu papel histórico". Folha - O 11 de Setembro marcou o início de uma nova era na geopolítica mundial. O que dizer do atentado de 11 de março na Espanha? Octavio Ianni - A inquietação social, política e cultural é intensa e pode resultar em protestos espetaculares. Classificar os atentados como loucura terrorista é simplificar o problema. Os atentados têm raízes nas condições sociais extremamente difíceis experimentadas por povos agredidos pelas corporações transnacionais e que estão sendo induzidos a entrar na globalização a ferro e fogo. O ataque de 11 de setembro atingiu dois pilares simbólicos dos EUA: o militar, com o ataque ao Pentágono, e o financeiro, no ataque às torres gêmeas. O governo da Espanha entrou numa guerra indo de encontro à opinião pública. O mundo árabe, ao contrário do que a mídia propaga, corresponde a um outro modo de ser e o ataque no dia 11 de março foi uma manifestação de protesto à adesão inexplicável da Espanha à guerra no Iraque. Ambos atentados foram ações revolucionárias. O que importa numa ação dessas não são as intenções dos agentes. Quando algumas pessoas derrubaram os portões da Bastilha queriam apenas protestar contra o despotismo. Ninguém imaginava que estava fazendo a revolução. Folha - As reações aos ataques nos EUA e na Espanha foram diferentes. Por quê? Ianni - Porque os europeus viram que eles todos podem ser alvo desse tipo de ação terrorista. Daí manifestar solidariedade a um país que devia ser integrado a União Européia e que está trabalhando justamente para rachar a UE, usando dessa oposição justamente para fazer o jogo da geopolítica norte-americana numa tentativa de se beneficiar de alguma maneira com os EUA. Nesse sentido, os atentados não deixaram de ser um aviso à Inglaterra. Folha - A violência no Brasil produz vítimas em escala de guerra. Por que essa estatística provoca menos comoção que muitas guerras a quilômetros daqui? Ianni - Faz parte da ideologia dos setores dominantes minimizar, porque isso prejudica a imagem do país e atrapalha os negócios de grandes companhias, a quem a mídia está acoplada. Uma leitura dos jornais do Rio e São Paulo revela que a mídia trabalha pela criminalização da sociedade civil. Quem lê fica com a sensação de que a sociedade está envenenada, mas as matérias não vão à raiz. Daí vem essa loucura, o boom da indústria de segurança. Folha - A desigualdade é apontada como fator da violência. O governo atua para resolvê-lo? Ianni - O governo Lula está demonstrando que não entendeu nada. Ele tinha o compromisso de inaugurar uma nova orientação. Só que para fazer isso é preciso que se reflita sobre os problemas reais. Foi um governo eleito com expectativas excepcionais, mas que não está conseguindo desempenhar seu papel na história. Descambou para uma retórica vazia, que consiste em pronunciamentos inflamados, mas inócuos. Folha - A política econômica é criticada, mesmo no governo. É possível deixar de se subordinar ao FMI? Ianni - A Índia e a China são exemplo de como aderir ao globalismo sem abdicar de um projeto nacional, sem abrir mão de participar do centro decisório. No Brasil, isso não deu certo porque tanto os militares quanto os civis que os sucederam entregaram o poder decisório a grandes conglomerados transnacionais. No Brasil, não há mais chances de se estabelecer um projeto nacional. É como no teatro ou no cinema. Em muitos casos os atores simplesmente não estão à altura dos personagens que deveriam encarnar. Folha - Como o sr. vê o esforço do Lula para levar o Brasil à liderança na América Latina? Trata-se de um projeto nacional viável? Ianni - Trata-se de fabricar manchetes. Aliás, ele está assessorado por quem? Brasília é hoje a nave dos insensatos. Estão todos descolados da história. Mas não é só no Brasil. Na Argentina também. Nem o Lula nem o Kirchner têm condições de levar seus países a executar um projeto nacional. Folha - Lula foi recebido pela comunidade internacional como um neo-socialista capaz de produzir o globalismo de baixo para cima. Por que goza dessa imagem ? Ianni - A comunidade internacional sempre blefou a respeito desse papel do Lula. Estão todos fazendo jogo de cena, o que de certo modo anestesia a opinião pública. Ou alguém acredita que o Schroeder ou o Chirac reconhecem esse papel no Lula? Só se fossem tontos! Estão blefando, claro. E blefam porque o Lula está fazendo o jogo geopolítico deles. É difícil dizer que Lula ou o Kirchner são presidentes. São, no máximo, administradores de províncias no mundo globalizado, fantoches. Folha - A que significa a queda da popularidade de Lula? Ianni - Lula é um desastre. A frustração que está produzindo na opinião pública é séria e profunda. Há pouco tempo o [ministro] José Dirceu disse que o que vão fazer com a universidade pública será mais sensacional do que fizeram na Previdência! Ao que tudo indica, vão acatar as diretrizes educacionais do Banco Mundial... Folha - Como fica a esquerda neste momento de descrédito? Ianni - A esquerda está demorando para entender a globalização. Eles são patriotas, mas são de um patriotismo que se confunde com um nacionalismo anacrônico. A esquerda precisa ser internacionalista. Eles não lêem "The Economist", não sabem o que está acontecendo por trás das decisões do mercado. A esquerda deve caminhar para uma inteligência lúcida do que é o processo e procurar estabelecer alianças com as classes subalternas, buscando construir um globalismo de baixo para cima. Mas eles preferem usar o palanque do Fórum Social para proferir discursos comprometidos com um nacionalismo anacrônico e ultrapassado. # Drª Cristina Magro – profª do PPG em Estudos Lingüísticos, Linguagem e Cultura / UFMG DATA: 12 de Abril, 18:00 COGNIÇÃO, LINGUAGEM E CULTURA, CONVERSAÇÕES COM A BIOLOGIA DO CONHECER Promoção: Programa de Pós Graduação em Psicologia Social e Institucional LOCAL: Instituto de Psicologia, sala 210 (Rua Ramiro Barcelos 2600, ao lado do Planetário) Informações: 33165149 – http://ppgpsi.psico.ufrgs.br # ![]() [TODO APOIO À IMPRENSA POPULAR E DEMOCRÁTICA] Logicamente que pode existir liberdade de imprensa. A única condição para tanto é que haja imprensa. Mas a questão é: liberdade para quem? As implicações que teve a geopolítica (política do Imperialismo) nos meios de comunicação mundiais acabaram por reduzir a linha geral do jornalismo moderno à única condição de “engenharia do consenso ”, expressão com que a cunharam, desde as últimas duas décadas do século XX, mantida até hoje. Esse espetacular aparato, formado pelos mais diferentes e gigantescos veículos e técnicas de chantagem, suborno, intrigas, difamações, etc., procura atribuir ao subjetivo as bases da realidade. Se o recurso por princípio é leviano e não se torna convincente, ao menos a “realidade ” vira padrão, porque todas as portas e janelas da comunicação encontram-se hermeticamente fechadas. :: conheça mais sobre a Linha Editorial do Jornal A Nova democracia :: alguns títulos: cotidiano da crise; A causa do desemprego; A burocracia freática no oeste catarinense; Um rótulo, oito ponderações; A matriz do quartzo; Parasitismo social; Os clandestinos da economia; Breve relato sobre os trabalhadores do carvão; O EE-T1 Osório: O limite para a desmobilização das Forças Armadas brasileiras; PT persegue e prende taxistas; Voltaremos para as nossas terras dizem os bravos camponeses; FGTS, exploração e desabrigo; O desvio de direita no Partido Comunista do Brasil; .................... # [Colóquio Internacional "Teoria Crítica e Educação"] 13 a 17 de setembro de 2004 O Grupo de Estudos e Pesquisa "Teoria Crítica e Educação", com sedes na UNIMEP, na UFSCar e na UNESP-Araraquara, desenvolve atividades de estudos e pesquisas, desde agosto de 1991, com o objetivo de aprofundar o conhecimento da Teoria Crítica da Sociedade e de sua contribuição para a análise de questões relacionadas à formação educacional e cultural contemporânea. Ao realizar seu 4º Colóquio, desta vez Internacional, pretende promover um espaço coletivo mais amplo de reflexão e reunir especialistas de diversas áreas do saber, para debater questões relacionadas à educação, à formação estética e cultural, sob o impacto das novas tecnologias, à luz dos teóricos clássicos da "Escola de Frankfurt" (Adorno, Horkheimer, Benjamin, Marcuse). Pensar as condições materiais e espirituais postas pelo capitalismo contemporâneo, referenciadas pelas contribuições teóricas dos filósofos frankfurtianos e devidamente problematizadas por pesquisadores e estudiosos que debatem tais questões na atualidade, constituem o objetivo primeiro do evento. As cinco conferências, bem como as quatro mesas redondas propostas, terão como pano de fundo os objetivos acima expostos. O Colóquio Internacional "Teoria Crítica e Educação" abrirá um espaço significativo para a exposição de pesquisas científicas a partir dos seguintes temas: Comunicação, Indústria Cultural e Semiformação Estética e Educação dos sentidos Tecnologia, Ética e Formação Teoria crítica e psicanálise Corpo, Cultura e Formação Tecnologia, Arte e Sociedade: Pintura Música Literatura Cinema Arquitetura Público: Profissionais e estudantes de Educação, Filosofia, Psicologia, Ciências Sociais, História, Comunicação, Artes, Letras-Literatura, particularmente vinculados a programas de pós-graduação, e demais pesquisadores, em suas diferentes áreas do saber, que se subsidiam e/ou dialogam com a Teoria Crítica da Sociedade. Informações: UNIMEP/ PPGE/ FAC. EDUCAÇÃO - Rodovia do Açúcar, Km 156, 13 400-911 - Piracicaba, SP Fone: (019) 3124.1549 / Fone/Fax (019) 3124.1617 e-mail: bpucci@unimep.br ou ppge@unimep.br Home Page: http://WWW.unimep.br # [Octavio Ianni] Francisco de Oliveira * Ianni nos deixou dia 4. Pertencia à geração que sistematizou a sociologia no Brasil, fazendo-a ir além de comentários abalizados sobre a situação social e a formação da sociedade brasileira, transformando-a em verdadeira ciência social. Octavio Ianni nos deixou neste último domingo, 4 de abril. Pertencia à geração que sistematizou a sociologia no Brasil, fazendo-a ir muito mais além de comentários abalizados sobre a situação social e a formação da sociedade brasileira, transformando-a em uma verdadeira ciência social. A partir deste salto, a trajetória de profissionalização das ciências humanas, no sentido de Weber, seguiu em carreira ascendente, com a formalização e institucionalização das pós-graduações. Octavio foi um grande professor. Apaixonado pela universidade, deu aula até duas semanas antes de morrer. Aposentado da Universidade de São Paulo (USP) pelo AI-5, foi para a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), onde formou, junto com seu mestre Florestan, Maurício Tragtenberg, Carmen Junqueira e muitos outros, um excelente curso de Ciências Sociais e sua pós-graduação, que cresceu e hoje mui justamente coloca-se entre os melhores do Brasil. Voltando à universidade pública, por convite do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, ficou lá até sua aposentadoria compulsória, há dois anos, com a qual não se conformava. Foi então professor-visitante na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e voltou uma vez mais à Unicamp, também como professor-visitante, na faina incansável de formar novas gerações de cientistas sociais. Sua universidade matriz, a USP, por sua Faculdade de Filosofia, reconheceu-lhe a importância dando-lhe o título de professor emérito. Em seu enterro na cidade de Itu, onde nasceu, viu-se parte de sua influência e sua herança: os colegas da Unicamp das ciências sociais estavam lá em peso, e muitos também da sua original Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Na divisão intelectual de trabalho patrocinada por Florestan, dedicou-se inicialmente ao estudo das relações raciais no Brasil, e à sua compreensão numa sociedade de castas que se transformava em uma sociedade de classes, em que o estigma racial funcionalizava-se como auxiliar da exploração. Depois, enveredou pelos estudos do desenvolvimento capitalista, na chave sociológica do subdesenvolvimento, inclusive a da formação dos aparelhos de planejamento no Estado brasileiro, percebendo, desde logo, que os mesmos faziam parte estrutural do movimento do capitalismo, não sendo apenas desvios retóricos. Sua produção logrou também interrogar as várias formas políticas na América Latina, nos países de maior desenvolvimento capitalista, e a peculiar forma de inserção do proletariado na arena política, que a sociologia de São Paulo estudou conceitualmente sob a ótica do populismo. O conhecimento historiográfico e sociológico posterior aconselham a uma revisão da caracterização protofascista do populismo, mas fica, sem dúvida, o esforço teórico para compreender uma forma própria da política de classes na periferia capitalista. Sua última fase de produção, já há mais de dez anos, dedicou-a à investigação dos fenômenos e dinâmica da mudança global capitalista, sobre a qual exerceu seu conhecido senso crítico, sem deixar de anotar a nova importância das formas “globais” que, de certo modo, nos projeta a todos para além das dimensões de nossas províncias nacionais, e redefine quase todas as questões. O número de seus alunos é quase incalculável, e a de seus orientandos é também avantajada, além das bancas de mestrado, doutorado, livre-docência e professor titular de que participou. Muitos lhe devem sua entrada na universidade, não por procedimentos patrimonalistas, mas pelo incentivo e decisiva crítica nas bancas de exame. Seria longa a lista dos serviços que prestou à universidade pública brasileira. A discussão da sua obra será constante e não se esgotaria num artigo que se inscreve nesse reconhecimento, além de ser também um penhorado agradecimento a quem me ajudou a entrar no mundo acadêmico de São Paulo e do Brasil, levando-me em 1970 para o Cebrap, para trabalhar num projeto de pesquisa sob sua coordenação. Tive o privilégio de compartilhar com ele, diariamente, um ambiente de trabalho e discussão apaixonada no Cebrap dos anos setenta, e de gozar de sua amizade durante mais de trinta anos. Mas a universidade pública perde um de seus formadores mais importantes, justamente numa hora em que se vê avassalada pelo mercado, pela expansão do ensino superior privado, e por posições ambíguas dos governos, desde o de FHC – aliás, seu colega de turma na Maria Antônia mítica – ao de Lula, que talvez esteja sendo preso na armadilha neoliberal também no capítulo da universidade, o que será – se completado – um erro de proporções históricas irreparáveis. O melhor que seus amigos, colegas e discípulos podem fazer é atualizar permanentemente a paixão de Octavio e suas posições, já que não podemos invocar sua intercessão extra-terrena. Para além de tudo, e de forma extremamente coerente, Octavio nunca vendeu sua independência intelectual a nenhuma marca, qualquer que fosse, numa lição de integridade republicana com poucos paralelos entre nós. Foi bonita e comovente a saudação de Eduardo Suplicy junto ao seu corpo: o pedido de uma calorosa salva de palmas para uma vida como a dele, que nos engrandeceu. Todos nós respondemos com dor e alegria: vai Octavio, ser gauche na eternidade. * Francisco de Oliveira é professor-titular aposentado do Depto. de Sociologia da USP e coordenador do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da FFLCH-USP :: publicado em 08/04/2004 na Agência Carta Maior # [Começa Fórum Mundial de Educação-SP] 10 mil vão à abertura no sambódromo
O ministro Tarso Genro e a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, participam da abertura do Fórum Mundial de Educação-SP. Até o próximo domingo (4), mais de 100 especialistas e cerca de 200 entidades trocarão experiências para fortalecer a luta pelo direito à educação. Bia Barbosa Discutir a construção de uma cidade educadora é apenas um dos objetivos do Fórum de Educação. Até o próximo domingo (4), mais de 100 especialistas da área e cerca de 200 entidades governamentais e não governamentais trocarão experiências para fortalecer a luta pelo direito à educação. :: leia da Agência Carta Maior, publicado em 02/04/2004 # [Especial 1964-2004 - 40 anos esta noite ] FRANCISCO DE OLIVEIRA O legado mais nefasto da ditadura militar dá-se no plano da política. A financeirização externalizada da economia impede as classes sociais internas de decidir sobre os rumos do Estado e da sociedade brasileira. O golpe militar que instaurou a mais longa ditadura no Brasil completa quarenta anos nesta passagem de 31 de março para 1º de abril: é a grande mentira nacional. Mas seria pura estultice teórica, com graves conseqüências políticas, negar o caráter determinante dos vinte e um anos da ditadura para a formação do que hoje somos. Somados aos quinze anos da ditadura de Vargas, de 1930 a 1945, resultam 36 anos de regimes declaradamente ditatoriais em 50 anos de acelerado crescimento econômico, entre 1930 e 1980. Isso deveria dizer alguma coisa sobre o caráter violento da expansão capitalista no Brasil no século XX. No período militar, a coerção estatal foi utilizada no grau máximo para acelerar o desenvolvimento: repressão ao movimento de trabalhadores, intervenção nas universidades, combinado com o uso do dinheiro público para financiar expansão e fusão de empresas, de forma que o Bradesco, por exemplo, simplesmente um tamborete no início dos anos sessenta, coloca-se no primeiro ou segundo lugar entre os bancos nacionais privados; o Itaú não é diferente: do modesto Banco da América, de fusão em fusão, transformou-se também ora no primeiro, ora no segundo entre os bancos privados nacionais. Na indústria pesada, os financiamentos do BNDE, através do Finame, alavancaram poderosos grupos que depois a “abertura” de FHC tornou pó. E as empresas estatais chegaram a representar uma porcentagem elevada do PIB brasileiro, dando a impressão, a quem chegasse de Marte, que se tratava de uma economia socialista. Fundos públicos foram constituídos como elementos de financiamento da acumulação de capital num grau que o mais delirante “populista” jamais se atreveria. Mas a própria aceleração da expansão pregou uma peça aos que pensavam ter resolvido para sempre os dilemas de uma economia na periferia do capitalismo. O uso do dinheiro externo, que fez com que a dívida externa brasileira saltasse dos 3 bilhões de dólares com Jango para 105 bilhões quando Figueiredo passou o bastão a José Sarney, externalizou definitivamente, por longo tempo, o financiamento da acumulação de capital. Com a globalização financeira, a dívida externa brasileira transformou-se no algoz do investimento.O último grande esforço para sair dessa armadilha deu-se no governo Sarney, com Dilson Funaro e a equipe da Unicamp, que com o Fundo Nacional de Desenvolvimento tentaram reverter o descalabro financeiro do Estado brasileiro, e fazê-lo voltar ao papel de grande financiador.O FND foi boicotado e ali finava-se a grande fase chamada “desenvolvimentista”. Depois disso, todos os governos viram-se às voltas com a dependência financeira externa da acumulação de capital. FHC tentou desbloquear internalizando poderosamente a própria financeirização globalizada, através de uma política cambial que se mostrou temerária e devastadora. As privatizações foram o grande atrativo para os capitais, mas esgotada essa fase, o capital produtivo não continuou a entrar como era esperado. O governo de Luis Inácio Lula da Silva não consegue escapar dessa restrição: não há nenhuma economia no mundo que consiga pagar 9% do PIB como serviço da dívida e continuar investindo. Se pensarmos que o coeficiente de investimento sobre o PIB hoje não passa de 17% a 18%, dá para ver o impedimento de forma clara. O legado mais nefasto da ditadura militar dá-se no plano da política. A financeirização externalizada da economia brasileira retira das classes sociais internas a capacidade de decidir sobre os rumos do Estado e da sociedade. É como se tornasse nossos votos inúteis e descartáveis. Não há, portanto, nada a comemorar. Nos dias que antecederam ao golpe, a esquerda brincava: “nada de intermediários: Lincoln Gordon para presidente”. O chiste virou profecia. Agora, chamaremos Soros ou Anne Krueger? Francisco de Oliveira é professor-titular aposentado do Depto. de Sociologia da USP e coordenador do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da FFLCH-USP publicado originalmente na Agência Carta Maior em 01/04/2004 # [Ciência e Pesquisa no Brasil] * por Raquel Recuero no Every flower is perfect Ciência e Pesquisa no Brasil - A questão da pesquisa é um grande problema no Brasil. Paulo de Camargo, freelancer para a Folha, aborda com propriedade o problema nessa matéria. No Brasil, os mais de 20 anos de estudo não são suficientes nem para a obtenção de uma bolsa, já que o funil é muito estreito. As principais agências de financiamento de pesquisas no país não atendem nem a 10% da demanda por bolsas. Para ter uma idéia, somente o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) tem cerca de 16 mil pedidos de bolsa para 2004, dos quais espera atender a apenas mil. A meta do governo é aumentar o número de doutores no País de 7 mil para 10 mil por ano. Muito bom. O único problema é que não existe mercado para a pesquisa no Brasil. O que fazer com esses novos 10 mil doutores? As universidades públicas pagam mal e não abrem vagas há anos. As privadas já estão com o seu quadro de professores quase lotado e, em sua maioria, investem recursos reduzidos na pesquisa. Centros tecnológicos? Não existem. Centros de Pesquisa? Raros onde se paga pouco e não se tem investimento. A realidade é duríssima. As instituições financiadores da pesquisa no Brasil, como a CAPES, o CNPq e, no nosso caso, a semi-moribunda FAPERGS, operam cada vez mais com recursos escassos. A realidade é que não existe uma política de investimento em pesquisa e tecnologia no País. Mais do que isso, o Brasil produz pouco. É a maior produção da América Latina, eu sei, mas produz pouquíssimo se comparado a centros como EUA, Europa ou mesmo Ásia. Por que? Porque as condições de trabalho com pesquisa são precárias por aqui. Os editais são concorridíssimos. A maioria dos pesquisadores pode passar a vida sem conseguir um tostão das instituições financiadores. A conseqüência é óbvia. Insatisfeitos e desiludidos com as condições de trabalho no Brasil, os pesquisadores vão embora. O Brasil é um grande exportador de mão de obra barata e super-qualificada. Eu conheço vários doutores e pós-doutores que hoje trabalham em centros de pesquisa no Exterior e não se arrependem, pois recebem todos os incentivos e condições para atuar naquilo que gostam e para o qual, investiram anos de suas vidas. A formação de um doutor ou pós-doutor leva, em média, 20 anos. O candidato é obrigado a passar por processos de seleção duríssimos, onde é exigido dele uma formação que praticamente inexiste nos bancos acadêmicos da graduação, que é a formação científica; tem que concorrer por bolsas, por vagas nos programas; apresentar trabalhos (de preferência, no exterior, muitas vezes arrumando dinheiro em seus próprios bolsos), publicar, apresentar relatórios o tempo todo (os resultados são exigidos ao extremo) e ainda subsistir com uma verba pequenininha. Muitos desistem pelo caminho. Vários, mais teimosos, formam-se doutores sem emprego. A verdade é que o problema é sério e precisa de atenção. Gerar mais doutores não é garantia de desenvolvimento tecnológico. É preciso aumentar fortemente os investimentos em pesquisa, se quisermos um dia sair do barco do terceiro mundo. Sem pesquisa, não se produz tecnologia nem desenvolvimento. E para que se produza pesquisa, é necessário investir. Se, ao invés de tentar aumentar o número de doutores, o governo trabalhasse com uma política de investimento que não obrigasse os atuais pesquisadores a comer o fígado um do outro, poderíamos falar em "luz do fim do túnel". Ou isso, ou vamos continuar investindo em cérebros para vendê-los a um custo baixíssimo a empresas e centros de pesquisa no exterior. |
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